À Professora Terezinha, com carinho
A historiadora que fez da História a sua vida
22/05/2025
LUIZ FELIPE
Já dizia Lucian Febvre que o “Historiador não é o que sabe, mas o que procura”. Professora Terezinha Saldanha, que nos deixou nesta madrugada, aos 70 anos, certamente merece o rótulo de historiadora excepcional. E esse é um relato pessoal de despedida que quero dividir com vocês.
Dona de uma inteligência invejável e de uma postura firme, foi uma professora querida por todos os colegas docentes e por seus alunos. Aos que tiveram a sorte de terem sido seus alunos, como eu fui, conheceram uma pessoa extremamente bem-humorada, com amplo conhecimento sobre a história local, sobre a história do Brasil e muitos outros temas. Terezinha não era somente professora, era a historiadora que fez da História sua vida e sua missão.
Mas não quero falar de quem era a professora que todos conheciam. Quero falar de uma Terezinha Saldanha que poucos conheciam, de uma Terezinha que me fez ser o historiador que sou. Faço questão de compartilhar uma história, que de tantas vezes que já foi contada, todos já conhecem. Mas faço questão de repetir. Faltando 7 meses para a conclusão do curso, este historiador que hoje escreve sobre sua professora, estava prestes a desistir do curso. Com o coração sempre disposto a ajudar quem precisava, Terezinha Saldanha, antes de iniciar uma de suas excelentes aulas sobre História do Brasil República, me chamou em um canto e disse: “se não tem condições agora, não force. Você tem no mínimo quatro anos obrigatoriamente para se formar, mas não precisa ser em quatro, pode voltar ano que vem, um ano a mais, um ano a menos, o que vale é o teu bem-estar”. Voltei no ano seguinte e concluí o curso.
Hoje, servidor do Legislativo, aprendi ainda mais sobre a história da cidade de Guarapuava em razão dos encontros que tínhamos para falar sobre política, sobre cultura e sobre a história guarapuavana. Queria encontrar Terezinha Saldanha? Bastava ir ao Arquivo Histórico e a encontraria trabalhando ou, em um momento de folga, no corredor do lado de fora com o seu cigarro na mão. O Arquivo Histórico é o que é hoje graças à Professora Terezinha. A organização, catalogação, formação de pesquisadores, cuidado e trato com os documentos...tudo foi possível graças a ela. O arquivo histórico também sempre prendeu minha atenção, me apaixonei pelo arquivo histórico e fui seu estagiário. Aprendi muito sobre arquivo e o cuidado com os documentos históricos.
A melhor coisa era encontrar Terezinha pelos corredores, as conversas rendiam horas se ninguém cortasse. E era uma pessoa que tinha conhecimento para falar de tudo. Pesquisadora exímia, literalmente escreveu a História ao dar voz às mulheres envolvidas com a prostituição na chamada Vila Pequena – hoje bairro Batel. Se dedicava fielmente à história das mulheres falando, pesquisando e escrevendo sobre temas espinhosos. Terezinha fez jus à frase icônica de Peter Burke: lembrou à sociedade o que ela queria esquecer. E a melhor parte: poder ouvir suas histórias em um cafezinho no quiosque da tia Clara, no campus Santa Cruz.
Parafraseando o amigo Paulo Esteche, em uma cidade que não dá atenção à própria História, Terezinha Saldanha foi uma guardiã fiel da história e da cultura do povo guarapuavano e nadando contra a maré. Hoje Guarapuava fica mais enfraquecida. Nossas mentes brilhantes estão indo embora deste mundo; a pergunta que fica – neste sentido, é: o que será de nós daqui a 50 anos? Para cada Terezinha Saldanha que parte desta vida, deveriam existir outras 20. Infelizmente ela é insubstituível.
Vá em paz, querida professora. Seus ensinamentos levarei comigo para sempre. Descanse em paz, grande historiadora!
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