Tarifaço dos EUA coloca setor madeireiro de Guarapuava e do PR sob pressão
Região concentra uma das maiores cadeias florestais do país
18/07/2026
Embora o debate nacional tenha assumido contornos diplomáticos entre Brasília e Washington, os primeiros impactos econômicos tendem a surgir muito longe dos centros políticos.
Poucas regiões brasileiras apresentam exposição tão elevada ao mercado americano quanto Guarapuava e o Centro-Sul do Paraná.
Nas últimas décadas, a economia regional consolidou uma das maiores concentrações brasileiras de florestas plantadas de pinus, indústrias de compensados, serrarias, fábricas de molduras, portas, pisos, painéis e componentes destinados principalmente à construção civil dos Estados Unidos.
Mais do que um polo industrial, formou-se uma cadeia produtiva integrada que conecta produtores rurais, empresas de reflorestamento, viveiros, transportadoras, fabricantes de equipamentos, operadores logísticos e centenas de prestadores de serviços especializados.
Qualquer redução consistente das exportações repercute em praticamente todos esses segmentos.
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Paraná aparece entre os Estados mais expostos
No caso paranaense, a exposição é ainda maior pela forte concentração da indústria florestal.
O Estado exporta aproximadamente US$ 681 milhões em produtos florestais para o mercado americano, dos quais cerca de US$ 627 milhões correspondem à madeira e seus derivados.
O Paraná lidera nacionalmente diversos segmentos, especialmente compensados de pinus, molduras, madeira serrada beneficiada e componentes utilizados na construção civil norte-americana.
Em algumas linhas de produtos, praticamente toda a produção destinada à exportação tem como destino os Estados Unidos.
Produtos mais vulneráveis
Os segmentos considerados mais sensíveis à nova política tarifária incluem:
- compensados (plywood);
- molduras de pinus;
- madeira serrada beneficiada;
- portas;
- pisos;
- painéis;
- componentes para construção civil;
- produtos industrializados de maior valor agregado.
Mesmo com algumas exceções tarifárias, entidades empresariais avaliam que grande parte da indústria continuará enfrentando perda de competitividade diante de concorrentes internacionais.
A memória recente preocupa empresários
O receio atual é alimentado pela experiência vivida durante o tarifaço anterior.
Na ocasião, empresas reduziram produção, suspenderam pedidos e adotaram férias coletivas.
Entre os casos de maior repercussão esteve a Millpar, uma das maiores empresas do setor com operações em Guarapuava, que colocou cerca de 640 trabalhadores em férias coletivas enquanto reorganizava sua produção de molduras diante da retração das encomendas internacionais, todo ele nos Estados Unidos.
Hoje, com o novo tarifaço, há um temor de que a Millpar possa ser novamente afetada.
Embora o cenário atual apresente diferenças em relação ao episódio anterior, empresários reconhecem que a memória dessas dificuldades permanece viva na região.
Uma cadeia que vai muito além das fábricas
O setor florestal movimenta aproximadamente 400 mil postos de trabalho, entre empregos diretos e indiretos no Paraná.
A cadeia envolve:
- produtores de pinus;
- reflorestadoras;
- viveiros;
- colheita mecanizada;
- transporte rodoviário;
- fabricantes de máquinas;
- oficinas especializadas;
- empresas ambientais;
- operadores logísticos;
- comércio regional.
Por isso, qualquer retração prolongada tende a produzir efeitos muito além das indústrias exportadoras.
O desafio de encontrar novos mercados
Substituir rapidamente os Estados Unidos não é tarefa simples.
Durante décadas, a indústria paranaense foi estruturada especificamente para atender exigências técnicas do mercado americano.
Dimensões dos produtos, certificações internacionais, padrões de qualidade, logística e contratos comerciais foram desenvolvidos em função desse destino.
Europa, Oriente Médio e Ásia aparecem como alternativas estratégicas.
Nenhum desses mercados, entretanto, possui atualmente capacidade para absorver, em curto prazo, o mesmo volume comprado pelos Estados Unidos.
Além disso, cada novo destino exige adaptações regulatórias, certificações específicas e investimentos adicionais.
Quando a floresta continua crescendo
A economia florestal possui uma característica singular.
Ao contrário de outros setores industriais, sua principal matéria-prima não pode simplesmente deixar de existir.
As árvores continuam crescendo.
Caso a demanda internacional recue por período prolongado, aumenta naturalmente a oferta de madeira disponível no mercado interno.
Essa pressão reduz preços pagos aos produtores rurais, compromete a rentabilidade dos reflorestamentos e afeta tanto grandes grupos empresariais quanto pequenos proprietários que utilizam a silvicultura como importante fonte complementar de renda.
Um teste para a resiliência da economia regional
Nos últimos anos, Guarapuava consolidou-se como um dos principais polos brasileiros da economia de base florestal.
O avanço tecnológico das indústrias, a expansão das áreas plantadas e o crescimento das exportações elevaram a importância estratégica da região para o setor madeireiro nacional.
O novo tarifaço, entretanto, representa um teste para esse modelo de desenvolvimento.
Em Guarapuava, o empresário Célio Cunha, o madeireiro mais antigo na atividade, tem uma visão singular sobre o assunto. Enquanto parte do debate público concentra-se na dimensão geopolítica da disputa comercial entre Brasil e Estados Unidos, o empresário desloca o foco para um desafio interno: a capacidade da própria indústria de administrar uma crise sem aprofundá-la.
Sua tese é que o impacto inicial das tarifas pode ser administrável se houver disciplina coletiva na oferta, preservação das margens e rejeição à competição baseada em preços abaixo do custo. Sem essa coordenação, o choque externo tende a ser amplificado por decisões tomadas dentro do próprio setor, convertendo uma perda parcial de mercado em um ciclo de descapitalização, queda de investimentos e fragilização de uma das cadeias produtivas mais importantes do Sul do Brasil.
Em outras palavras, o tarifaço pode ser apenas o gatilho. A profundidade da crise dependerá, em grande medida, da forma como a indústria responderá a ele – um dilema clássico de ação coletiva que ajuda a explicar por que, em mercados altamente integrados, a maior ameaça nem sempre vem da barreira comercial imposta pelo exterior, mas da incapacidade dos próprios agentes econômicos de coordenar sua reação.
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