Tarifaço ameaça madeireiras do PR: Célio Cunha alerta para risco de colapso nos preços
Veterano do setor afirma que o maior perigo não é perder mercado nos EUA, mas guerra de preços
18/07/2026
Setor madeireiro enfrenta riscos de retração econômica e desemprego; é o segmento que mais emprega em GuarapuavaO novo tarifaço de 25% imposto pelos Estados Unidos sobre produtos brasileiros pode representar um dos momentos mais delicados para a indústria madeireira paranaense desde as disputas comerciais da última década. Para o economista e empresário Célio Cunha (Indústria de Compensados Celplac), considerado o madeireiro de Guarapuava com maior tempo de atividade em operação no setor e uma das vozes mais respeitadas da cadeia florestal do Paraná, o verdadeiro risco não está apenas na perda de parte das exportações para o mercado americano, mas na reação que as empresas poderão adotar diante desse cenário.
Sua avaliação parte de uma lógica econômica simples: se parte da produção destinada aos Estados Unidos permanecer no mercado interno ou precisar ser redirecionada para outros destinos, haverá excesso de oferta. Caso cada fabricante tente preservar volume de vendas reduzindo preços, o resultado poderá ser uma deterioração generalizada da rentabilidade de toda a cadeia.
"O problema maior não será vender menos aos Estados Unidos. Será o efeito dessa produção sobre os preços dos demais mercados", resume o empresário Célio Cunha
A advertência ganha peso justamente porque parte do setor ainda carrega as cicatrizes do tarifaço anterior, quando empresas reduziram turnos, concederam férias coletivas e promoveram demissões para enfrentar a retração das exportações.
Agora, segundo Cunha, existe o risco de repetir erros conhecidos.
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A matemática da crise
Ex-dirigente empresarial e dedicado à matemática financeira, Célio Cunha utiliza os números do próprio mercado para explicar a dimensão do desafio.
Segundo sua análise, os Estados Unidos absorvem aproximadamente um terço das exportações brasileiras de compensados, volume equivalente a cerca de 22% de toda a produção nacional.
Caso a nova tarifa reduza essas vendas pela metade – hipótese considerada plausível pelo empresário –, cerca de 11% da produção brasileira deixaria de seguir para o mercado americano.
À primeira vista, a redução parece administrável.
Na prática, porém, ela deslocaria um enorme volume de madeira para mercados já abastecidos.
É exatamente aí que Cunha identifica o principal ponto de risco.
Segundo ele, a indústria deveria agir coletivamente, ajustando temporariamente a produção para evitar excesso de oferta e preservar preços.
Sua proposta é direta: reduzir a oferta em aproximadamente 11%, repartindo o esforço entre os produtores.
"A visão não deve ser catastrófica, mas o sacrifício precisa ser dividido", afirma.
Na avaliação do empresário, essa coordenação evitaria uma competição predatória que poderia comprometer financeiramente empresas de todos os portes.
Sem esse movimento coordenado, diz ele, o setor poderá transformar uma redução localizada de demanda em uma crise muito mais ampla de rentabilidade.
O custo da desunião
Ao longo de décadas acompanhando os ciclos da indústria madeireira, Cunha identifica outro obstáculo.
Para ele, o setor historicamente demonstra dificuldades para agir de maneira coordenada em momentos de crise.
Em sua avaliação, prevalece frequentemente uma lógica individual, na qual cada empresa tenta preservar sua participação de mercado reduzindo preços, ainda que isso comprometa o equilíbrio financeiro coletivo.
Segundo o empresário, essa falta de coordenação pode ampliar os efeitos negativos da tarifa americana muito além da redução inicial das exportações.
Quando vender barato deixa de ser vantagem
O risco do dumping e da erosão da competitividade
Na avaliação de Célio Cunha, outro problema estrutural já vinha fragilizando a indústria antes mesmo da nova rodada de tarifas.
Trata-se da prática de negociações realizadas abaixo dos custos reais de produção.
No comércio internacional de compensados, competir por eficiência faz parte das regras do mercado.
Competir oferecendo preços economicamente inviáveis, porém, produz efeitos opostos aos desejados.
Segundo Cunha, um exemplo recente ilustra essa distorção.
Enquanto o custo de produção do pine plywood gira em torno de US$ 340 por metro cúbico, ainda existem compradores oferecendo aproximadamente US$ 290/m³.
Para ele, essa diferença não representa ganho de produtividade.
E, sim, a expectativa de que alguém aceite produzir sistematicamente com prejuízo.
Essa prática, afirma, desencadeia uma sequência de efeitos negativos:
- descapitalização das empresas;
- redução dos investimentos em inovação;
- menor capacidade de investir em qualidade e sustentabilidade;
- aumento do risco de interrupção do fornecimento;
- maior exposição a investigações antidumping;
- insegurança jurídica nas relações comerciais;
- deterioração da concorrência saudável.
Na visão do empresário, compradores responsáveis não deveriam buscar apenas o menor preço disponível.
Continuidade de fornecimento, conformidade regulatória, estabilidade financeira dos fornecedores e qualidade consistente tornam-se ativos econômicos tão importantes quanto o preço final.
"O futuro da indústria depende de competitividade baseada em produtividade, tecnologia e gestão – nunca em preços inferiores ao custo de produção", sustenta.
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