Política > 8 DE JANEIRO

STF: Fux e o impacto de um voto pela nulidade

Parecer abre brecha para pressionar Corte a analisar recursos, mas lá no futuro

10/09/2025

Antes mesmo de o ministro Luiz Fux expor sua posição no Supremo Tribunal Federal, advogados ligados à defesa do ex-presidente Jair Bolsonaro haviam antecipado um argumento que soaria familiar: o processo deveria ter começado na primeira instância, e não diretamente no STF. Quando Fux, poucas horas depois, defendeu exatamente essa tese, a estratégia da defesa ganhou um inesperado fôlego institucional.

Embora a maioria da Corte já caminhe no sentido da condenação do “núcleo duro” da tentativa de golpe de 2022, o voto do ministro introduziu incerteza. Para analistas jurídicos, trata-se menos de uma adesão integral ao discurso bolsonarista e mais de um gesto que preserva uma coerência histórica de Fux em favor de garantias processuais. Mas, politicamente, o efeito foi imediato: abriu espaço para que a oposição rearticule o discurso de “perseguição” e reivindique a revisão de todo o julgamento.

Recomendado para você

Lideranças bolsonaristas celebraram o voto como uma espécie de “brecha jurídica” capaz de, no mínimo, atrasar o processo e, no máximo, anular condenações. Deputados da ala mais fiel ao ex-presidente falaram em “reestabelecimento do devido processo legal” e citaram Fux como um contraponto ao ministro Alexandre de Moraes, a quem acusam de “militância judicial”.

Nos bastidores, porém, o alívio vem acompanhado de cautela. Mesmo que a tese de nulidade prospere, dificilmente significará absolvição imediata. O processo poderia simplesmente ser reiniciado em outra instância, mantendo Bolsonaro e aliados sob risco. Ainda assim, estrategistas políticos próximos ao PL enxergam oportunidade para prolongar a narrativa de vitimização até 2026.

O olhar da esquerda e do governo

Para governistas e setores da esquerda, o voto foi recebido com apreensão. Dirigentes do PT e do PSOL avaliam que a sinalização de Fux pode “enfraquecer a pedagogia do julgamento” – ou seja, a ideia de que a Corte está estabelecendo um marco intransponível contra rupturas democráticas.

No entorno do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a avaliação é pragmática. Auxiliares afirmam que, mesmo que a nulidade avance, “o estrago político para Bolsonaro já está feito”: a exposição pública do planejamento golpista dificilmente será apagada. O temor, porém, é que uma decisão de anulação seja interpretada como recuo do STF, alimentando a retórica de perseguição judicial.

O que pode acontecer agora

Analistas ouvidos avaliam três cenários principais:

Voto isolado – Caso a tese de Fux não seja acompanhada por outros ministros, a nulidade morre no plenário e o processo segue rumo à condenação. Esse é o desfecho mais provável, segundo juristas próximos ao STF.

Aderência parcial – Se outros magistrados aderirem à tese, ainda que sem maioria, o julgamento pode ser estendido, com novos embargos e recursos. O resultado imediato seria o prolongamento da incerteza política.

Efeito dominó – O cenário mais improvável, mas de maior impacto, seria a formação de maioria pela nulidade. Nesse caso, todos os processos ligados ao “núcleo 1” teriam de ser reiniciados em instâncias inferiores, abrindo um vácuo político e jurídico que reforçaria o discurso bolsonarista.

O dilema do Supremo

O voto de Fux recoloca em evidência uma tensão antiga: o equilíbrio entre rigor democrático e garantias processuais. Para a imagem do Supremo, a decisão sobre acolher ou rejeitar a tese da nulidade terá peso duplo – definirá não apenas o futuro de Bolsonaro e seus aliados, mas também a percepção de até que ponto a Corte está disposta a enfrentar críticas de parcialidade.

Em um país ainda marcado pela polarização, cada gesto no plenário é lido como um sinal maior. E, no caso de Fux, um voto solitário pode não mudar a condenação, mas certamente alterou a narrativa em torno dela.

Últimas Notícias

André Prado Banner