São João sem fogueira: como o Sul foi deixando junho apagar
O que aconteceu com essa tradição?
24/06/2026
Memórias de um tempo em que o inverno começava nas ruas, entre caieiras, quadrilhas e festas que mobilizavam a cidade inteiraNo Sul do Brasil, havia um tempo em que o inverno não começava quando o termômetro marcava temperaturas baixas.
Começava quando apareciam as primeiras bandeirinhas.
Antes das redes sociais, antes dos festivais gastronômicos e antes de o entretenimento migrar para dentro das telas, junho tinha um ritual próprio. As cidades desaceleravam por algumas noites para fazer algo que hoje parece simples e, justamente por isso, raro: reunir pessoas.
O calendário marcava 24 de junho — Dia de São João.
Para muitos, especialmente no interior do Paraná, era menos uma data religiosa e mais uma mudança simbólica de estação.
O frio deixava de ser fenômeno climático e virava cenário.
Acendiam-se fogueiras. Servia-se quentão. Cozinhava-se pinhão. Crianças ensaiavam quadrilhas semanas antes. Adultos assumiam funções invisíveis – montar barracas, arrecadar prendas, organizar cortejos, buscar madeira.
Junho tinha um roteiro.
E ele era coletivo.
Hoje, as festas continuam existindo. Escolas ainda organizam apresentações. Igrejas mantêm quermesses. Eventos públicos preservam parte do repertório visual.
Mas algo mudou.
A sensação compartilhada por quem viveu as décadas anteriores é de que São João deixou de ocupar o centro da vida social.
A pergunta aparece sempre em tom de lembrança, mas carrega uma investigação silenciosa sobre mudanças culturais mais profundas quando foi que junho deixou de parar a cidade?
A data religiosa que virou linguagem brasileira
O Dia de São João celebra o nascimento de São João Batista, figura central da tradição cristã. É uma exceção importante dentro do calendário católico: enquanto a maioria dos santos é celebrada no dia da morte, João Batista é lembrado pelo nascimento.
No Brasil, porém, a data ultrapassou há muito tempo o espaço litúrgico.
As festas juninas nasceram da combinação entre tradições religiosas portuguesas, festas europeias ligadas ao solstício e adaptações feitas em território brasileiro.
Ao longo dos séculos, cada região construiu seu próprio São João.
No Nordeste, a festa ganhou escala monumental.
No Sul, seguiu outra lógica.
Aqui, junho se encontrou com o frio.
E o frio produziu seus próprios símbolos.
O inverno tinha cheiro
Toda memória coletiva tem um elemento sensorial.
No caso das antigas festas juninas do Sul, quase sempre ela começa pelo cheiro.
Cheiro de lenha.
Cheiro de fumaça impregnada no casaco.
Cheiro de pinhão recém-cozido.
Cheiro de quentão.
Não era apenas decoração temática.
As festas funcionavam como uma experiência de estação.
Em muitas cidades, o São João representava o primeiro grande encontro do inverno.
As antigas caieiras – nome que em diferentes regiões passou a identificar grandes fogueiras comunitárias – eram montadas dias antes.
Crianças observavam o crescimento da estrutura como quem acompanha uma obra pública.
Acender a fogueira era quase um ato cerimonial.
Ao redor dela, desapareciam diferenças de idade.
Ali estavam os alunos da escola, os pais, os avós, professores, vizinhos.
Hoje, olhando em retrospecto, chama atenção um detalhe: quase nada daquilo dependia de consumo.
As festas eram construídas pela própria comunidade.
Quando o casamento caipira saía para as ruas
Em Guarapuava, entre as lembranças que resistem na memória de diferentes gerações, uma aparece com frequência: a festa da Igreja Santa Terezinha.
O evento reunia elementos comuns às festas juninas – barracas, comidas típicas, apresentações.
Mas havia um momento que escapava da lógica de palco.
O casamento caipira.
Não ficava restrito ao salão.
Virava cortejo.
Os personagens percorriam ruas da cidade numa encenação improvisada que misturava teatro popular, humor e participação espontânea.
A noiva exageradamente produzida. O noivo relutante. O padre. As intervenções cômicas.
As pessoas saíam de casa para assistir.
Hoje, quando eventos culturais disputam atenção em ambientes digitais, esse tipo de celebração chama atenção por outra razão: não havia espectadores passivos.
Todo mundo, de alguma forma, fazia parte.
A Festa do Pinhão e a escola como centro cultural
Outro símbolo desse período era a Festa do Pinhão do Colégio Agrícola Arlindo Ribeiro.
Para muita gente, ela condensava a lógica das antigas festas juninas do Sul.
Não era apenas um evento gastronômico.
Era um encontro.
As escolas tinham um papel central nesse ecossistema cultural.
Praticamente todas promoviam festas.
As quadrilhas ocupavam semanas de preparação.
Os figurinos eram feitos em casa.
Havia apresentações, barracas, concursos, brincadeiras.
O resultado era um calendário compartilhado.
Junho criava circulação entre famílias, bairros es gerações.
Hoje, esse protagonismo escolar diminuiu.
Parte por mudanças administrativas.
Parte por custos.
Parte porque o ambiente escolar passou a concentrar outras demandas.
O desaparecimento sem data
Quando uma tradição acaba de forma brusca, costuma deixar marcos.
No caso das festas juninas, isso não aconteceu.
Ninguém anunciou o fim.
As fogueiras foram ficando menores.
As quadrilhas menos frequentes.
Os cortejos desapareceram.
As festas passaram de grandes encontros comunitários para eventos pontuais.
Não existe uma única explicação.
Mas alguns movimentos ajudam a entender.
As cidades cresceram.
As relações comunitárias ficaram mais dispersas.
Normas de segurança limitaram estruturas abertas e fogueiras de grande porte.
A rotina escolar mudou.
O entretenimento deixou de depender do espaço físico.
E talvez exista uma transformação mais difícil de medir.
Por décadas, as festas juninas cumpriam uma função que hoje ficou diluída: criar pertencimento.
Elas obrigavam encontros.
Exigiam preparação coletiva.
Produziam memória compartilhada.
O que resta quando a tradição muda
As festas juninas continuam.
Elas aparecem em escolas, igrejas, centros comunitários e eventos públicos.
Mas a escala mudou.
A intensidade mudou.
Talvez o que esteja desaparecendo não seja a quadrilha nem o quentão.
Talvez seja outra coisa.
A ideia de que uma cidade inteira podia esperar por uma mesma noite.
No Sul, durante muito tempo, era isso que o Dia de São João significava.
Não apenas uma celebração religiosa.
Nem apenas uma festa típica.
Mas um acordo silencioso de que, por algumas horas, o inverno seria vivido em conjunto.
E que bastava uma fogueira acesa para todo mundo aparecer.
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