O lago, as flores e os olhos de quem espera
Fotógrafo transforma o Parque do Lago, em Guarapuava, em um inventário poético de árvores, água e animais que encontraram no coração da cidade um lugar para viver
20/08/2026
Em suas projeções, Airton Nego revela a poesia silenciosa num parque que pulsa no coração de Guarapuava. São instantes de beleza e encantamento que lembram: às vezes, basta parar e olhar para descobrir a natureza escondida dentro da cidadeHá lugares que a cidade constrói. E há lugares que, depois de construídos, parecem ganhar uma vida própria.
O Parque do Lago, em Guarapuava, é desses lugares. Tem caminhos, gramados, bancos, água e árvores. Mas, em determinados momentos, parece menos um espaço urbano e mais uma paisagem que a cidade aprendeu a compartilhar.
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Foi esse parque, feito de pequenos encantamentos, que o fotógrafo Airton Nego encontrou com sua câmera.
Suas imagens não procuram apenas a paisagem aberta. Elas se aproximam das cores, das formas e dos encontros que acontecem quando ninguém está procurando por eles. Uma árvore florida contra o céu. O lago refletindo a claridade do dia. Flores espalhadas pelo caminho. Um pássaro à margem da água. Capivaras descansando próximas umas das outras. E, entre todos esses elementos, a presença discreta de uma cidade que parece diminuir quando a natureza ocupa o primeiro plano.
Em uma das fotografias, uma cerejeira florida explode em tons de rosa diante do azul do céu.
A copa parece uma nuvem de flores suspensa sobre o parque. Ao redor, outras cores aparecem em silêncio: o verde do gramado, o vermelho e o rosa das flores mais próximas, os tons claros do caminho, a água ao fundo.
É uma paisagem que parece ter sido pintada em camadas.
Primeiro, as flores. Depois, o gramado. Mais adiante, as árvores. E, finalmente, o lago, aberto como uma pausa entre a vegetação e as casas.
A fotografia tem algo de postal, mas não é um cartão turístico. É mais íntima.
Há beleza justamente porque a cena parece pertencer à rotina de quem vive na cidade.
O parque não está longe. Não exige estrada, trilha ou viagem. Basta chegar.
E olhar.
Quando a paisagem se move
Em outra imagem, a paisagem deixa de ser apenas cenário.
À margem do lago, capivaras repousam próximas à água. Há diga que elas não estão mais lá, nem sabe para onde foram. Mas Airton Nego, em algum momento, conseguiu fazer o registro, ao menos para deixá-las na lembrança. Uma delas parece perceber a presença do fotógrafo e dirige os olhos para a câmera.
E as aves que por lá gorjeiam, uma das cenas mais bonitas do conjunto porque não há separação entre os animais e a paisagem.
É uma dessas cenas que talvez dure poucos segundos.
O pássaro chega. A água se movimenta. Alguém passa pelo caminho. E, quando o fotógrafo dispara a câmera, aquele instante deixa de ser apenas instante.
Vira memória.
As cores que a cidade quase não percebe
O Parque do Lago também aparece nas fotografias como uma sucessão de cores.
O rosa das cerejeiras.
O verde profundo das árvores.
O amarelo e o vermelho das flores espalhadas pelos canteiros.
O azul do céu.
O brilho claro da água.
Os tons terrosos das margens.
E, de repente, as cores dos animais – discretas, naturais, quase sempre subordinadas à paisagem – começam a completar a composição.
Há também os plátanos, com suas copas que mudam a fisionomia do parque conforme a estação. Quando o olhar se demora, cada árvore deixa de ser simplesmente uma árvore. Torna-se parte de uma paisagem que está sempre se transformando.
O parque nunca é exatamente o mesmo.
A luz muda.
As flores mudam.
As folhas mudam.
A água muda.
Os animais mudam de lugar.
E talvez seja justamente essa impermanência que Airton Nego consegue registrar.
Um lugar para quem passa – e para quem fica
A cidade costuma medir seus espaços pelo movimento das pessoas.
Quantos caminham. Quantos correm. Quantos atravessam. Quantos sentam.
As imagens propõem outra medida.
Quantas espécies encontraram ali um lugar.
Quantas árvores florescem.
Quantas aves chegam.
Quantas vezes as capivaras aparecem.
Quantas manhãs o lago devolve o céu.
É uma mudança sutil de perspectiva.
E o por do sol, que teima desafiar os edifícios que querem furtar nosso olhar para o horizonte multicor desta Guarapuava secular...
O Parque do Lago deixa de ser apenas um espaço de lazer e passa a ser percebido como um território compartilhado.
As pessoas caminham pelas margens. Os pássaros pousam. As árvores oferecem sombra. As flores anunciam as estações. O lago recebe tudo isso e devolve uma paisagem diferente a cada hora.
Talvez seja por isso que algumas fotografias parecem ter silêncio.
Mesmo quando há movimento, elas sugerem pausa.
Como se cada imagem tivesse esperado o instante em que a cidade diminuísse o próprio ruído para que fosse possível ouvir aquilo que normalmente passa despercebido.
Todo mundo fala
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