Historiador Luiz Felipe Lima estreia no Paraná Central escrevendo sobre a Lutcher
Escritor passa a integrar a equipe de colaboradores do Portal
04/03/2026
Antiga fábrica da Lutcher, na "Vila de Segredo", hoje Candói: ouro e urânio?O historiador Luiz Felipe Lima, de Guarapuava, compartilha com os leitores do Portal Paraná Central suas pesquisas e estudos sobre temas variados da atualidade e do passado.
Formado em história pela Unicentro, com especialização em relações internacionais e geopolítica, Luiz Felipe Lima também é aficionado por fotografia e vídeo-drone. Ele compartilha da seção de Opinião do Paraná Central com o advogado Milton Luiz Cleve Küster e o juiz federal aposentado Marcelo Antonio Cesca.
A primeira série escrita pelo historiador é sobre a antiga fábrica da Lutcher.
Para que o leitor tenha dimensão dessa história, antecipamos algumas informações, repassadas pelo próprio Luiz Felipe Felipe.
A incrível história da Lutcher
A Lutcher S.A. Celulose e Papel foi uma das maiores empresas do Brasil e também da América Latina. Localizada na vila do Segredo, atual município de Foz do Jordão, a empresa foi construída no encontro das águas dos rios Jordão e Iguaçu. Sua trajetória é marcada por inovação tecnológica, mas também por uma crise financeira que fez a fábrica fechar as portas e deixar uma profunda marca na economia local. Além disso, diversos boatos e lendas também rondam a história da empresa, entre eles a extração clandestina de ouro e urânio.
Fundada no início da década de 1960 pelo empresário norte-americano Frederic Lutcher Brown, a empresa surgiu com o propósito de se tornar a maior indústria do Brasil e prometia revolucionar o processo de produção de papel e celulose. A Lutcher tinha como objetivo competir em pé de igualdade com sua maior concorrente, a Klabin S/A. O local escolhido foi a região do distrito do Candói, que à época ainda pertencia à Guarapuava e se deu pela abundância de Araucárias (pinheiro) e a grande disponibilidade de água.
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Do dia para a noite, a vila do Segredo viu sua realidade mudar drasticamente. Com algumas dezenas de habitantes, a vila deu um salto para mais de 3.000 moradores por causa dos operários de diferentes estados do Brasil que foram atraídos com a promessa de emprego e excelentes salários. A média salarial na região na época era de aproximadamente 40 mil cruzeiros, cerca de R$ 1.500, enquanto isso, a Lutcher prometia salários de até Cr$ 150 mil, o que hoje equivaleria a cerca de R$ 5.500. Ali, culturas se misturavam: eram operários brasileiros, ingleses, alemães, paraguaios e argentinos, todos parte da construção do império de Frederic Lutcher.
A grandeza do empreendimento
A grandeza do empreendimento foi tanta, que além dos mais de 3 mil empregos gerados, a empresa também foi responsável pela inovação da infraestrutura local. Com o avanço, o governo se viu obrigado a construir estadas pavimentadas e ferrovias para escoar a produção local. Internamente a indústria tinha estrutura de cidade, nas dependências existiam aproximadamente 300 casas para operários e diretores, além de escola, cinema, igreja, mercado, hospital e até um aeroporto que funcionava de maneira clandestina. O quadro total da empresa chegou à marca de 3.500 funcionários, 160 caminhões e milhões em máquinas importadas.
Durante os anos de atividades foram inúmeras as lendas e história que rondavam a Lutcher. A principal delas, é de que a produção de papel era uma operação de fachada, pois a empresa – supostamente – fazia extração de urânio de modo clandestino, pois não possuía autorização do governo brasileiro para tal ato. Ex-funcionários da empresa sustentam diversas histórias, de que a empresa possuía túneis no subterrâneo para que os materiais fossem transportados e de que diversas áreas da empresa eram proibidas até mesmo para alguns diretores. Os funcionários também relatavam que era comum, na madrugada, ouvirem os motores dos aviões levantando voo e um comboio de caminhões subir a serra com caixas e mais caixas misteriosas. Além do urânio, havia também os boatos da mineração clandestina do ouro, que supostamente retirou toneladas do minério do solo paranaense e que foram enviados ao exterior.
Para construir a empresa, Frederic Lutcher Brown fez um empréstimo do Banco Interamericano do Desenvolvimento – BID, de aproximadamente US$ 5 milhões, que seriam liberados em três parcelas. Ocorre que o BID também fez um empréstimo à Klabin, principal concorrente da Lutcher e a ação acabou por prejudicar o bom andamento da indústria. Enquanto a Klabin já era uma gigante consolidada, a Lutcher tinha dificuldades de entrar no mercado, embora fosse responsável pela exportação de milhares de toneladas de papel para os Estados Unidos, Inglaterra e Argentina. Quando o BID se recusou a fazer o pagamento da parcela restante do empréstimo, a Lutcher começou a enfrentar dificuldades financeiras que resultaram na diminuição da produção e demissão em massa dos funcionários. Nos arquivos do Poder Judiciário de Guarapuava que estão no CEDOC da Unicentro, é possível encontrar diversos processos trabalhistas contra a Lutcher movido por trabalhadores que foram demitidos sem nada receber.
A empresa operou por um curto período de cinco anos, entretanto, seu processo de falência se arrastou por anos, isso porque a empresa também contraiu diversas dívidas com o governo brasileiro. Hoje toda a área, inclusive as instalações abandonadas, pertence ao Grupo Trombini, que atua no ramo de embalagens. A área é controlada por uma subsidiária, a Rio Jordão Papéis S/A. Nada restou além das histórias e das instalações abandonadas, a história da Lutcher demonstra, acima de tudo, a dificuldade da industrialização do interior do Paraná e é parte importante do capítulo do ciclo da madeira no Paraná.
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