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Ex-vereador se entrega à polícia após denúncias de crimes sexuais contra adolescentes

Hélio de Mello responde por 28 acusações e, se condenado, pode pegar vários anos de cadeia

09/10/2025

IRATI – Na tarde de quinta-feira, 9 de outubro, o ex-vereador e ex-professor Hélio de Mello (PL) se entregou à polícia na Cadeia Pública de Guarapuava. O ato, marcado para as 13h, encerrou dois dias de condição de foragido, após a Justiça decretar sua prisão preventiva por uma série de acusações envolvendo crimes sexuais contra adolescentes do sexo masculino, supostamente cometidos entre 2017 e 2024.

As denúncias emergem como o resultado de uma investigação densa e multifacetada conduzida por diversas instituições públicas, incluindo o Conselho Tutelar de Irati, a Promotoria de Justiça, a Polícia Civil e órgãos educacionais do estado. De acordo com o Ministério Público do Paraná (MPPR), Mello é acusado de 28 atos criminosos, que vão desde estupro de vulnerável até favorecimento da prostituição de menores.

As acusações indicam um padrão sistemático de aliciamento, manipulação e violência sexual, muitas vezes disfarçado sob a aparência de presentes, pagamentos ou promessas de apoio. Os crimes teriam ocorrido tanto nas dependências do Colégio Estadual do Rio do Couro – escola rural onde ele lecionava educação física – quanto fora do ambiente escolar.

O estopim da apuração ocorreu em 5 de agosto de 2024, quando o Conselho Tutelar de Irati recebeu uma denúncia anônima. O relato indicava que o professor cometia abusos sexuais contra estudantes adolescentes. A denúncia, inicialmente vaga, rapidamente ganhou corpo com o avanço das investigações. Uma força-tarefa foi criada com o objetivo de garantir celeridade e sigilo ao caso, reunindo órgãos públicos e autoridades educacionais.

Durante os meses seguintes, dezenas de depoimentos foram colhidos. Adolescentes e ex-alunos relataram abordagens indevidas, toques sem consentimento, chantagens emocionais e promessas de vantagens em troca de encontros íntimos. Alguns afirmaram que foram induzidos a enviar fotos íntimas. Há também indícios de que dinheiro e bens materiais foram utilizados para persuadir vítimas a manter o silêncio ou continuar os contatos.

Omissão e responsabilidades compartilhadas

O caso ganha contornos ainda mais delicados ao envolver outros agentes públicos. A irmã de Hélio de Mello, ex-diretora da escola onde ele lecionava, também foi denunciada. Segundo o Ministério Público, ela teria tido conhecimento de parte dos abusos, mas optou por não tomar providências — uma omissão que pode configurar conivência e negligência funcional.

A inação da diretora levanta questionamentos sobre o ambiente institucional em que os crimes ocorreram. Documentos acessados pela investigação apontam que, apesar de comportamentos suspeitos terem sido notados por outros funcionários ao longo dos anos, não foram feitas denúncias formais. Um padrão de silêncio, comum em ambientes escolares interioranos, pode ter contribuído para a continuidade dos abusos.

Trajetória política e queda

Figura influente na política local, Hélio de Mello foi vereador de Irati por sete mandatos consecutivos, desde 2003. No início de 2024, presidia a Câmara de Vereadores. Em agosto, alegando problemas médicos, solicitou licença de 90 dias. No entanto, com o avanço das investigações, renunciou ao cargo em 9 de setembro – um mês antes de se apresentar à polícia.

O advogado de defesa, Ricardo Mathias Lamers, afirma que Hélio sempre colaborou com as investigações e que se apresentou voluntariamente assim que teve conhecimento do mandado de prisão. “O Sr. Hélio de Mello sempre esteve à disposição das autoridades, conforme comunicou formalmente no curso das investigações”, declarou à imprensa.

O caso e seus impactos

As investigações seguem em curso, e o processo tramita sob sigilo judicial. A promotoria sinaliza que outras vítimas podem surgir, à medida que a repercussão do caso quebra o silêncio da comunidade. A possível responsabilização de outros funcionários públicos ou membros da rede de proteção social também está em análise.

Este caso, que envolve abuso de poder, vulnerabilidade social e omissão institucional, lança luz sobre um problema sistêmico: a dificuldade de identificar, denunciar e punir crimes sexuais em espaços tradicionalmente hierárquicos, como escolas e câmaras municipais de cidades do interior. E expõe, sobretudo, a fragilidade das estruturas de proteção a crianças e adolescentes.

Próximos passos

Com a prisão preventiva decretada, Hélio de Mello aguardará os desdobramentos do processo sob custódia. Se condenado, poderá enfrentar décadas de reclusão. O Ministério Público avalia pedir a extensão da investigação para outros municípios da região, diante da possibilidade de que o alcance dos crimes vá além de Irati.

Enquanto isso, a comunidade tenta lidar com os traumas e as perguntas ainda sem resposta. Como um homem que por mais de 20 anos ocupou cargos públicos e educacionais conseguiu manter em segredo um padrão de violência por tanto tempo? E, principalmente: quantas vítimas ainda não foram ouvidas?

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