Etanol ganha tração com petróleo em alta e açúcar em baixa
Flexibilidade industrial das usinas volta a ser decisiva em cenário de maior volatilidade global
31/03/2026
A combinação de choques simultâneos – excesso de oferta no açúcar e risco geopolítico no petróleo – está reconfigurando, com rapidez incomum, o cálculo econômico das usinas brasileiras. O resultado é uma migração mais intensa do mix produtivo para o etanol, em uma tentativa de recompor margens em um ambiente global adverso para o adoçante.
Os preços internacionais do açúcar operam próximos aos níveis mais baixos da última década, pressionados por um superávit global estimado em cerca de 870 mil toneladas na safra 2025/26. A dinâmica é, sobretudo, de oferta: safras robustas em grandes produtores asiáticos ampliaram a disponibilidade do produto, enquanto a demanda cresce em ritmo mais lento no pós-pandemia – refletindo mudanças de hábitos alimentares e o avanço de medicamentos antiobesidade.
Esse pano de fundo estrutural enfraquece a atratividade do açúcar justamente quando um fator exógeno – o agravamento do conflito envolvendo o Irã e o risco de disrupção no Estreito de Ormuz – eleva os preços do petróleo. Como consequência, melhora a paridade do etanol frente à gasolina, reposicionando o biocombustível como alternativa mais competitiva.
Na prática, o setor sucroenergético brasileiro reage ajustando seu mix. Projeções indicam redução da fatia destinada ao açúcar no Centro-Sul, de cerca de 51% para algo próximo de 48%, com redirecionamento da cana para a produção de etanol. O movimento já estava em curso, mas ganha tração adicional com o novo ciclo de alta nos combustíveis fósseis.
Há, no entanto, limites claros para essa estratégia. O mercado de etanol tornou-se mais competitivo nos últimos anos, especialmente com o avanço do etanol de milho, que apresenta custos mais baixos e produção contínua ao longo do ano. Esse aumento estrutural de oferta tem comprimido preços e, em determinados períodos recentes, levou o biocombustível a operar abaixo do custo de produção.
Ainda assim, a atual janela pode ser suficiente para reequilibrar o setor no curto prazo. Caso a migração de mix se consolide, o excedente global de açúcar tende a se dissipar – com estimativas de retirada potencial de até 2 milhões de toneladas do mercado –, o que poderia sustentar uma recuperação gradual dos preços da commodity.
O ajuste em curso ilustra a crescente sensibilidade do agronegócio brasileiro a variáveis globais que vão além do clima e da produtividade. Em um cenário de transição energética e maior volatilidade geopolítica, a flexibilidade industrial – capacidade de alternar entre açúcar e etanol – volta a ser o principal ativo estratégico das usinas.
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