Casa Branca ameaça usar poder econômico e militar para “proteger a liberdade de expressão”
Ministra brasileira Gleisi Hoffmann reage: "Conspiração contra o Brasil"
09/09/2025
A Casa Branca sinalizou nesta terça-feira (9) que está disposta a recorrer a instrumentos econômicos e até militares para defender o que chama de “liberdade de expressão” em países aliados, colocando o Brasil no centro de um embate diplomático num momento delicado de sua política interna.
Karoline Leavitt, secretária de imprensa do presidente Donald Trump, afirmou que Washington acompanha “com atenção” o julgamento do ex-presidente Jair Bolsonaro no Supremo Tribunal Federal, acusado de tentar derrubar as instituições democráticas em 8 de janeiro de 2023. A ministra de Relações Institucionais, Gleisi Hoffmann, criticou nesta terça-feira (9) declaração do governo dos Estados Unidos de que o país poderia usar seu "poder militar" para retaliar o Brasil por causa do julgamento do ex-presidente Jair Bolsonaro.
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“O presidente (Donald Trump) não tem medo de usar o poder econômico e militar dos Estados Unidos da América para proteger a liberdade de expressão ao redor do mundo”, disse Leavitt. “Medidas significativas já foram tomadas em relação ao Brasil na forma de sanções e tarifas para garantir que países não punam seus cidadãos dessa forma.”
Até agora, a Casa Branca não anunciou novas penalidades contra o governo brasileiro. Mas o tom da porta-voz expôs a disposição de Trump em transformar o caso Bolsonaro em bandeira política — tanto para sua base doméstica, que vê no ex-presidente brasileiro um aliado ideológico, quanto no cenário internacional, onde tenta reafirmar a liderança americana em questões de direitos civis e valores conservadores.
A fala da secretária ocorre em meio a um julgamento histórico em Brasília. O ministro Alexandre de Moraes, relator no STF, votou nesta terça-feira pela condenação de Bolsonaro e de outros sete réus por crimes que incluem golpe de Estado, organização criminosa e abolição violenta do Estado Democrático de Direito.
Repercussões no Brasil
As declarações vindas de Washington ecoaram com força em Brasília, onde integrantes do governo brasileiro classificaram as ameaças de Trump como “ingerência inaceitável” em assuntos internos. Aliados do presidente Luiz Inácio Lula da Silva ressaltaram que o processo contra Bolsonaro segue “os ritos da Justiça brasileira” e não pode ser tratado como perseguição política.
Nos bastidores, diplomatas temem que o endurecimento da retórica americana prejudique negociações comerciais em andamento, especialmente no agronegócio, setor que depende fortemente do mercado dos Estados Unidos.
A oposição, por sua vez, reagiu de maneira distinta. Parlamentares próximos de Bolsonaro celebraram as falas da Casa Branca como um sinal de que o ex-presidente mantém respaldo internacional e denunciaram o julgamento no STF como “tentativa de silenciamento político”.
O peso de Bolsonaro na política de Trump
Trump já havia manifestado anteriormente frustração com a guinada “à esquerda radical” que, em sua visão, o Brasil teria tomado nos últimos anos. Ao mesmo tempo, vem repetindo em entrevistas que Bolsonaro é “um homem honesto” vítima de uma “execução política”.
Ao assumir a defesa de Bolsonaro em termos tão duros, Trump arrisca tensionar relações com Brasília em um momento em que o governo Lula tenta preservar canais diplomáticos abertos com Washington, especialmente em temas como meio ambiente e comércio.
O julgamento em Brasília, que deve se estender pelos próximos dias, colocará à prova não apenas o futuro político de Bolsonaro, mas também a capacidade do Brasil de resistir a pressões externas em um caso que, cada vez mais, transcende suas fronteiras.
"Conspiração contra o Brasil", afirma ministra Gleisi Hoffmann
Em uma postagem nas redes sociais, a ministra Gleisi Hoffmann afirmou que chegou ao "cúmulo" a "conspiração da família Bolsonaro contra o Brasil", apontando para a articulação conduzida pelo deputado federal Eduardo Bolsonaro para que os EUA sancionem o Brasil.
"Não bastam as tarifas contra nossas exportações, as sanções ilegais contra ministros do governo, do STF e suas famílias, agora ameaçam invadir o Brasil para livrar Jair Bolsonaro da cadeia. Isso é totalmente inadmissível'", disse a ministra.
Ela defendeu ainda a cassação do deputado federal, filho do ex-presidente Jair Bolsonaro.
"Ainda dizem que estão defendendo a "liberdade de expressão". Só se for a liberdade de mentir, de coagir a Justiça e de tramar golpe de Estado; estes sim, os crimes pelos quais Bolsonaro e seus cúmplices estão sendo julgados no devido processo legal", acrescentou.
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