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Amor à história e à tradição conduz os passos do Grupo Ânima há 35 anos

Com 60 integrantes, são mais de 400 apresentações

08/08/2026

Numa Guarapuava em que a preservação da memória histórica ainda enfrenta sérias imitações e pouco espaço, um grupo dedicado à cultura italiana faz, há 35 anos, mais do que manter uma tradição: mantém viva uma parte da história de quem ajudou a construir a cidade. Passo a passo, ao som da tarantela e de outras danças típicas, o Grupo Folklorístico Italiano Ânima transformou dedicação, resiliência e compromisso com o legado dos antepassados em uma história que atravessa gerações.

É uma história feita por gente comum, mas sustentada por uma determinação incomum: pesquisar, ensaiar, confeccionar e preservar trajes, recuperar coreografias e levar ao palco costumes que poderiam simplesmente desaparecer com o passar do tempo. No Ânima, a memória não está guardada apenas em fotografias ou documentos. Ela dança.

E há uma ironia saborosa na trajetória de um dos homens que hoje ajudam a mantê-la em movimento. Johann Leandro Pollyak tem origem germânica, mas foi justamente em um grupo de folclore italiano que encontrou a mulher com quem se casaria – e, depois, um espaço para envolver também os dois filhos.

“Quando me apresento como coordenador do grupo italiano, perguntam: ‘Mas, com este nome alemão, o que você tem de italiano?’. E eu respondo: a esposa e, agora, os filhos”, brinca.

A história de Johann se mistura à trajetória do Gruppo Folklorístico Italiano Ânima, que completa 35 anos de fundação e celebra a data neste sábado (8), a partir das 19h30, com um jantar festivo no Centro de Eventos Fiori, em Guarapuava. O encontro reúne integrantes, famílias e representantes da grande colônia italiana do município.

Coordenador Johann Pollyak conheceu a esposa no grupo e hoje dança ao lado dos filhos

Há 35 anos, o Ânima transforma dança, música e tradição em uma espécie de ponte entre Guarapuava e as raízes italianas de parte de sua população. Fundado em 1991, com apoio do Círculo Ítalo-Brasileiro de Guarapuava, o grupo nasceu com uma missão clara: resgatar, preservar e divulgar manifestações da cultura italiana por meio do canto, do teatro, da culinária e, sobretudo, das danças folclóricas.

Ao longo de três décadas e meia, porém, a iniciativa deixou de ser apenas um grupo de dança. Tornou-se um espaço de convivência entre gerações e uma das formas pelas quais tradições trazidas pelos imigrantes italianos continuam presentes no cotidiano de Guarapuava.

A cultura italiana que virou parte da vida

O Ânima nasceu inspirado pelo trabalho do Círculo Ítalo-Brasileiro Laços d'Oro, com o propósito de resgatar, preservar e divulgar tradições trazidas pelos imigrantes italianos.

O Ânima está aberto a pessoas de diferentes origens, idades e trajetórias. O que importa, segundo o coordenador Johann Pollyak, é o interesse pela cultura italiana, pela dança e pela convivência.

É também uma maneira de criar um espaço de encontro em uma época em que boa parte das relações sociais passa pelas telas.

“Gostar da cultura italiana, de dançar, de conviver com pessoas e de se afastar um pouco da prisão tecnológica, do celular e das redes, são as principais características para integrar nosso grupo”, afirma.

Trinta e cinco anos de história

Fundado em 1991, o grupo construiu uma trajetória que ultrapassou as fronteiras de Guarapuava.

São mais de 400 apresentações realizadas em cinco Estados brasileiros, com público estimado em mais de 50 mil pessoas.

Ao longo desse período, o Ânima transformou apresentações folclóricas em uma forma de contar histórias.

O repertório atual reúne mais de 40 coreografias, inspiradas em costumes e situações vividas em diferentes comunidades italianas.

As danças representam regiões como Sicília, Campânia, Calábria, Friuli e áreas litorâneas.

Há coreografias relacionadas a casamentos, festas da colheita da uva, produção de vinho e acontecimentos do cotidiano das antigas comunidades.

Não se trata apenas de reproduzir passos. A intenção é preservar o contexto cultural que existe por trás de cada dança.

A tarantela e as histórias por trás da dança

Entre as manifestações mais conhecidas está a tarantela napolitana, uma das marcas do repertório italiano.

A dança está associada a antigas tradições populares da região de Nápoles e possui diferentes versões sobre sua origem. Uma delas relaciona a tarantela às crenças populares envolvendo picadas de tarântulas e à ideia de que movimentos intensos ajudariam a combater os efeitos do veneno.

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Com o tempo, a dança ganhou identidade própria, marcada pela aceleração do ritmo e pela energia dos movimentos.

Para o Ânima, porém, o mais importante é preservar a manifestação cultural e a história popular associada a ela.

A tarantela é apenas uma entre dezenas de coreografias pesquisadas e apresentadas pelo grupo.

Há também danças que remetem às festas da colheita, à produção de vinho e até a histórias relacionadas a períodos de guerra, quando comunidades precisavam esconder suas reservas de vinho e outros bens.

Uma tradição que começa na infância

O futuro do Ânima passa pelas crianças.

O grupo mantém categorias para diferentes faixas etárias, permitindo que a tradição seja transmitida dentro das próprias famílias.

A categoria infantil reúne crianças de 3 a 10 anos. O grupo juvenil atende participantes de 10 a 16 anos, enquanto o adulto é formado por integrantes acima dos 16.

Ao todo, são mais de 60 componentes.

Também houve tentativas de formação de um grupo Master, voltado aos integrantes mais velhos. A iniciativa ainda não se consolidou como uma categoria permanente, mas a presença de diferentes gerações continua sendo uma das características do Ânima.

É justamente essa convivência que permite que uma criança aprenda uma dança ao lado de um adulto e que famílias inteiras participem da mesma atividade.

Três horas por semana – e sem mensalidade

Há mais de dez anos, os ensaios são realizados nas dependências do Colégio Estadual Francisco Carneiro Martins.

A rotina acontece aos sábados.

Juvenil e adulto ensaiam das 14h30 às 17h30. As crianças têm atividades das 15h30 às 16h.

Há ainda uma particularidade pouco comum: participar do Ânima é gratuito.

O grupo não cobra mensalidade nem taxa de inscrição. Parte dos trajes utilizados nas apresentações também é fornecida aos integrantes.

A manutenção da estrutura depende de ações promovidas pelo próprio grupo, como o jantar comemorativo dos 35 anos, além de cachês obtidos em apresentações em eventos ligados à cultura italiana, reuniões familiares e festividades.

Uma Itália que também está na mesa

A influência italiana em Guarapuava vai muito além das danças folclóricas.

Ela aparece diariamente na gastronomia, na música, na religiosidade e nos costumes.

Pizza, lasanha, macarronada e polenta se tornaram tão comuns que muitas vezes já não são percebidas como parte de uma herança cultural.

É justamente nesse ponto que o trabalho do Ânima ganha outra dimensão.

Ao levar uma coreografia para o palco, o grupo não está apenas apresentando uma dança. Está recuperando uma parte da memória de comunidades que atravessaram o oceano, se estabeleceram no Brasil e ajudaram a formar a identidade cultural da região.

Quando tradição deixa de ser memória

Aos 35 anos, o Ânima já poderia ser tratado como parte da história cultural de Guarapuava.

Mas a trajetória do grupo sugere outra coisa: a tradição continua em movimento.

A presença de crianças, jovens, adultos e famílias mostra que a cultura italiana não ficou congelada no passado. Ela se transforma à medida que novas pessoas entram no grupo, aprendem as coreografias, vestem os trajes e descobrem as histórias que existem por trás de cada apresentação.

Neste sábado, quando o jantar no Centro de Eventos Fiori reunir a comunidade italiana para celebrar os 35 anos do Ânima, a festa será, portanto, mais do que uma comemoração.

Será um encontro entre passado e futuro – entre aqueles que receberam a tradição dos antepassados e aqueles que, mesmo sem ter sangue italiano, escolheram dançá-la.

Porque, depois de 35 anos, o Ânima parece ter descoberto uma maneira simples de preservar uma cultura: não apenas lembrá-la, mas fazê-la continuar sendo vivida.

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