STF abre caminho para condenação de Bolsonaro em julgamento sobre tentativa de golpe
Placar está em 2 a 0 pela condenação do ex-presidente e de todo o "núcleo 1" da trama golpista
09/09/2025
O Supremo Tribunal Federal (STF) avançou nesta terça-feira (9) para condenar o ex-presidente Jair Bolsonaro e sete de seus aliados mais próximos por tentativa de golpe de Estado, em um julgamento que pode redesenhar os limites da política brasileira e consolidar uma ruptura histórica: pela primeira vez, um ex-chefe de Estado poderá cumprir pena de prisão por conspirar contra a democracia.
O placar parcial está em 2 a 0 pela condenação, após os votos dos ministros Alexandre de Moraes, relator do caso, e Flávio Dino. Ainda faltam os posicionamentos de Luiz Fux, Cármen Lúcia e Cristiano Zanin, previstos até sexta-feira (12). As penas, que podem chegar a 30 anos de prisão, serão definidas somente após a conclusão da votação. Na sessão desta quarta-feira (10), o ministro Luiz Fux apresenta seu voto a partir das 9 horas, o momento mais esperado. Fux é considerado um ministro "simpático" a setores bolsonaristas, ficou de fora das sanções do governo dos EUA e pode apresentar voto divergente à maioria do colegiado.
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O caso em análise envolve a cúpula política e militar que, segundo a Procuradoria-Geral da República, iniciou em 2021 uma conspiração para manter Bolsonaro no poder mesmo após a derrota para Luiz Inácio Lula da Silva nas eleições de 2022. A trama culminou na invasão e depredação das sedes dos Três Poderes, em 8 de janeiro de 2023, episódio que Moraes descreveu como “o ápice de um plano de ruptura institucional”.
Em voto de mais de cinco horas, Moraes classificou Bolsonaro como “líder da organização criminosa”, destacando o uso da máquina pública para preparar e executar o plano. Dino reforçou essa avaliação, sublinhando que Bolsonaro e o general Walter Braga Netto exerceram papéis de comando e, portanto, devem receber penas mais severas.
A lista de réus inclui ainda Mauro Cid, ex-ajudante de ordens do presidente; Alexandre Ramagem, ex-diretor da Abin e hoje deputado federal; Anderson Torres, ex-ministro da Justiça; Almir Garnier, ex-comandante da Marinha; Augusto Heleno, ex-ministro do GSI; e Paulo Sérgio Nogueira, ex-ministro da Defesa.
O embate sobre anistia
O julgamento ocorre em paralelo a uma ofensiva de aliados de Bolsonaro no Congresso, que tentam aprovar um projeto de lei de anistia. Dino rechaçou a possibilidade de perdão, afirmando que “esses crimes já foram declarados insuscetíveis de indulto e anistia”. O posicionamento ecoa precedentes do próprio Supremo e busca neutralizar a narrativa política de que o tribunal estaria criminalizando adversários.
Apesar disso, a proposta de anistia ganhou tração entre partidos de centro-direita, que veem na medida uma forma de preservar a base bolsonarista e evitar um colapso político em 2026. O Palácio do Planalto, por sua vez, tem evitado confrontar o tema abertamente, preferindo que o desgaste fique restrito ao campo oposicionista.
Implicações políticas e eleitorais
Para Bolsonaro, a condenação representaria não apenas a perda de direitos políticos, mas a cristalização de uma narrativa que poderá dividir o campo conservador. Governadores e parlamentares alinhados ao ex-presidente já discutem alternativas para 2026, caso ele seja juridicamente impedido de concorrer. Nomes como Tarcísio de Freitas, governador de São Paulo, e Romeu Zema, de Minas Gerais, emergem como potenciais herdeiros da base bolsonarista.
A médio prazo, o julgamento tende a testar a resiliência do sistema político. Um eventual encarceramento de Bolsonaro poderia gerar protestos em massa, mas também acelerar a reorganização das forças de direita em torno de figuras menos controversas. Analistas veem no processo uma linha divisória: a depender de seu desfecho, o país pode caminhar para a normalização democrática ou para uma polarização ainda mais radicalizada.
O peso da história
O Brasil já enfrentou crises institucionais graves, mas o julgamento atual carrega uma singularidade. Desde o fim da ditadura militar, em 1985, nenhum presidente ou ex-presidente havia sido formalmente acusado de conspirar contra a ordem democrática. A última vez em que o país viveu algo semelhante remonta a 1964, quando o golpe militar depôs João Goulart sem que houvesse responsabilização posterior.
Moraes, em sua intervenção, destacou justamente essa diferença: “Ninguém nunca na história viu golpista que deu certo se colocar no banco dos réus. Se o golpe tivesse sido consumado, quem estaria no banco dos réus é o Supremo Tribunal Federal”.
Ao enquadrar o processo nesse contexto histórico, o tribunal sinaliza que o julgamento vai além das figuras individuais, funcionando como um teste de estresse para a democracia brasileira.
O que esperar
A expectativa é que a votação seja concluída até sexta-feira. Mesmo que haja divergências entre os ministros, um placar majoritário pela condenação já colocaria Bolsonaro e seus aliados entre os primeiros políticos de alto escalão punidos criminalmente por tentativa de golpe de Estado.
O resultado poderá definir não apenas o futuro político do ex-presidente, mas também os rumos da direita brasileira e a própria capacidade das instituições de resistirem a projetos autoritários. Como resumiu Dino em sua manifestação: “É um julgamento como qualquer outro, regido por fatos e provas, mas que diz muito sobre a saúde da nossa democracia.”
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