Secretária Rosana diz que citações são “fake news”
Oposição cobra explicações para “falas discriminatórias” contra pais de autistas
07/03/2026
Secretária Rosana Schwartz: "falas são recortes fora de contexto"A secretária municipal de Educação de Guarapuava, Rosana Aparecida Schwartz, enfrenta um dilema político e público. De um lado, setores ligados à oposição ao prefeito Denilson Baitala passaram a acusá-la de ter feito declarações ofensivas a pais de crianças autistas e outras neurodivergências. De outro, a secretária tenta convencer a opinião pública de que o vídeo que viralizou nas redes sociais foi editado e retirado de contexto de uma reunião que teria durado cerca de três horas – ou seja, as alegações oposicionistas são “infundadas” e estão sendo utilizadas de forma “oportunista”.
A crise começou após a circulação de um vídeo em redes sociais e aplicativos de mensagens. No material, aparecem falas atribuídas à secretária que familiares consideraram preconceituosas, desinformadas e ofensivas. Nos trechos que passaram a circular, Rosana Schwartz teria afirmado que mães conseguem com facilidade laudos de autismo e, com isso, acesso a um auxílio financeiro de aproximadamente R$ 1,6 mil por mês. Em outra passagem, também atribuída a ela, haveria a afirmação de que muitas mães recorrem à Justiça para obter esse benefício e “deixar de trabalhar”, situação que teria sido classificada como um “novo comércio”.
Entre famílias atípicas, a reação foi imediata. Pais e mães contestam a narrativa e relatam justamente o oposto: a dificuldade para conseguir o diagnóstico de Transtorno do Espectro Autista. Há relatos de famílias que precisaram buscar atendimento em outras cidades e aguardar meses de acompanhamento até a emissão do laudo médico.
Nas redes sociais, em grupos de WhatsApp e entre organizações que atuam na defesa de pessoas autistas, o sentimento predominante passou a ser de indignação. Para muitos familiares, a fala atribuída à secretária reduziria uma realidade complexa a um estereótipo, ao sugerir que diagnósticos, ações judiciais e a própria luta por inclusão estariam motivados por vantagem financeira.
Outro ponto que ampliou a tensão foi a menção, no vídeo, a uma orientação para que professoras “deixem as crianças à vontade”. A referência seria a estudantes autistas que têm mobilidade e autonomia. Para familiares, porém, a declaração banalizaria a necessidade de acompanhamento individualizado, planejamento pedagógico específico e suporte especializado dentro das escolas.
Nota de repúdio e mobilização
Diante da repercussão, a Associação Guarapuavana Mundo Azul divulgou nota de repúdio classificando as falas recortadas nos vídeos como “extremamente preocupantes, desrespeitosas e generalizantes”.
Segundo a entidade, declarações desse tipo reforçam estigmas e colocam sob suspeita a luta legítima das famílias por inclusão. A associação também destacou que o professor de apoio é um direito previsto em lei para estudantes com necessidades específicas, e não um privilégio.
A mobilização também começou a sair do ambiente virtual. O grupo “Direitos Já, Inclusão Não é Favor” articula uma manifestação pública e cobra, ao menos, uma retratação oficial.
Os números ajudam a dimensionar o alcance do debate. De acordo com dados do CTEA encaminhados a profissionais da cidade, Guarapuava tem cerca de 1,7 mil crianças e adolescentes com Transtorno do Espectro Autista e outras neurodivergências matriculados nas redes municipal e estadual de ensino.
Somente na Associação Mundo Azul, segundo uma das diretoras da entidade, são cerca de 500 famílias cadastradas – muitas delas com mais de um filho diagnosticado ou com outros membros da família também no espectro.
Secretária diz que é “fake news”
Após a repercussão, Rosana Aparecida Schwartz se manifestou em publicação também por rede social. Na mensagem, afirmou que o vídeo se trata de uma montagem e classificou o conteúdo como “fake news”.
A mesma versão foi relatada por ela a representantes da Associação Mundo Azul. Segundo esse relato, o material divulgado teria sido editado de forma a distorcer o que foi discutido durante a reunião.
Fontes da Prefeitura que afirmam ter participado do encontro sustentam que, em nenhum momento, a secretária fez as declarações da forma como estão sendo condicionadas a ela. De acordo com esses relatos, a reunião durou aproximadamente três horas e o vídeo que circula nas redes seria apenas uma parte descontextualizada.
Apesar da repercussão, a administração municipal preferiu não emitir, até o momento, um posicionamento oficial sobre o caso. A secretária, por seu lado, ficou sozinha, defendendo-se como pôde na internet.
Há ainda a informação de que a secretária já teria adotado medidas cabíveis em relação à divulgação do vídeo. Outro ponto citado por pessoas próximas é que Rosana possui familiar com neurodivergência.
Para muitas famílias que convivem com pessoas autistas e outras neurodivergências, o episódio expõe uma tensão mais profunda: a necessidade de aproximação entre o discurso institucional de inclusão e a forma como essas famílias devem ser tratadas na prática dentro do sistema educacional.
A secretária Rosana Schwartz sustenta que sua conduta pode ser comprovada pelo histórico à frente da Secretaria da Educação e, também, como profissional do setor. “Estamos entrando na época de campanha política. Tudo é possível” – alerta.
Os vereadores Pablo Almeida e Ike Silvestri (PP), da Comissão de Educação, prometem levar o assunto para o plenário da Câmara Municipal. A vereadora Terezinha Dai Prai (PT) e o deputado estadual Dr. Antenor (PT) foram os primeiros fazer cobranças, como também o Sindicato dos Servidores Municipais (Sisppmug). Eles cobram um posicionamento do prefeito Denilson Baitala.
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