Rota Assunção: Paraguai torna-se atrativo para investidores brasileiros
De país periférico, a "case" no Continente, os desafios e vantagens oferecidos pelo governo paraguaio
09/02/2026
A capital Assunção tem cerca de 462 mil habitantes, com densidade aproximada de 4 000 hab./km². A Grande Asunção (área metropolitana), que inclui bairros e cidades vizinhas, concentra mais de 2,3 milhões de pessoasNuma manhã ensolarada de janeiro, no centro financeiro de Assunção, a capital do Paraguai, investidores brasileiros perambulam entre escritórios de advocacia e salas de reuniões em busca de informações sobre incentivos fiscais.
Não se trata de um "boom" passageiro, mas de um movimento sustentado de capital, empresas e pessoas físicas em direção ao país vizinho. O Paraguai – historicamente visto como economia periférica – vem se consolidando como um dos casos econômicos mais observados da América Latina, atraindo atenção crescente de brasileiros não apenas por turismo ou compras nas zonas de fronteira, mas por oportunidades de investimento, moradia e negócios.
Um modelo fiscal que quebra paradigmas regionais
No centro dessa transformação está o regime tributário simplificado conhecido como “10-10-10”:
- 10% de imposto de renda para empresas;
- 10% para pessoas físicas;
- 10% de IVA (imposto sobre valor agregado).
Esse sistema reduz dramaticamente a carga tributária em comparação com países vizinhos. No Brasil, por exemplo, impostos corporativos podem ultrapassar 30% do lucro e a complexidade tributária é uma das maiores barreiras ao crescimento empresarial.
No Paraguai, a carga tributária representa cerca de 14% do PIB, uma das mais baixas da América do Sul.
A política fiscal paraguaia é complementada pela Lei de Maquila e seus sucessores, um regime de incentivos a investimentos exportadores. Sob esse sistema, empresas que produzem para exportação gozam de suspensão de tarifas sobre insumos importados e pagam um tributo equivalente a 1% sobre valor agregado ou faturamento exportado – benefícios agora formalizados pela Lei nº 7.547/2025.
O resultado prático é que, em setores como autopeças, têxteis, plásticos e alimentos, os custos de produção podem ser até 40% menores do que no Brasil.
Crescimento econômico e atratividade estratégica
Os números ajudam a entender a magnitude da mudança. Em 2024, o Paraguai registrou crescimento do PIB em torno de 4%, superando a média da região e reforçando sua resiliência econômica.
Em 2024 o país atraiu 1.051 investidores estrangeiros, em grande parte empresas interessadas nas facilidades para estabelecer operações industriais e exportadoras. Foram registradas, segundo dados oficiais, mais de 7.600 novas empresas, muitas delas aproveitando estruturas societárias simplificadas.
O regime de Maquila continua impulsionando exportações. Só em 2025, até abril, o valor exportado sob esse regime chegou a cerca de US$ 388 milhões, com crescimento de 13% ano a ano e mais de 32.000 empregos diretos criados.
Brasileiros: migrantes e investidores
Os efeitos desse ambiente econômico atravessam fronteiras. Dados de migrações mostram que mais de 263 mil brasileiros vivem no Paraguai, um fenômeno descrito por especialistas como uma “migração contínua” e não um êxodo repentino.
Somente em 2025, mais de 22 000 brasileiros solicitaram residência legal no país, representando uma fatia significativa do total de pedidos no ano.
O perfil desses migrantes mudou ao longo da última década. Se antes predominavam agricultores e pequenos comerciantes, hoje expressivas parcelas são empresários, profissionais qualificados e estudantes, atraídos por oportunidades de negócio, custo de vida menor e um ambiente macroeconômico estável.
Integração produtiva com o Brasil
O Brasil é o maior parceiro comercial e principal investidor estrangeiro no Paraguai, com um estoque acumulado de US$ 1,5 bilhão em investimentos diretos, concentrados em setores como autopartes, alimentos e energia.
Notadamente, cerca de 63% das exportações Maquila têm como destino o Brasil, refletindo o papel do Paraguai como extensão produtiva da cadeia industrial brasileira.
Vantagens que seduzem e desafios que moldam a escolha
Empresários brasileiros citam não apenas o sistema tributário, mas também energia mais barata, com custos reduzidos graças à participação em grandes hidrelétricas como Itaipu, e um ambiente regulatório considerado mais previsível.
Especialistas lembram, porém, que nem tudo é um mar de facilidades. A infraestrutura física e de serviços ainda está em desenvolvimento em muitas regiões, e a economia paraguaia enfrenta desafios como produtividade ainda inferior à média regional e dependência de setores tradicionais.
Paraguai além da fronteira
A conjunção de políticas públicas consistentes, baixo custo tributário, incentivos a exportadores e integração com as cadeias produtivas brasileiras está transformando o Paraguai em um caso de estudo regional – um país que, num continente marcado por volatilidade econômica, fiscal e política, oferece uma alternativa competitiva e pragmática.
Para brasileiros, a decisão de investir, morar ou produzir no Paraguai não é apenas motivada por números econômicos, mas por uma leitura estratégica de longo prazo: em um contexto de custos crescentes e complexidade regulatória em outros mercados, a vizinhança paraguaia surge como um atalho para oportunidades reais e tangíveis.
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