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Ratinho Jr. recua de disputa presidencial: decisão expõe cálculo familiar e sucessão no Paraná

Governador abandona pré-candidatura ao Planalto e opta por concluir mandato; movimento altera xadrez nacional do partido e acirra disputa estadual

23/03/2026
Ratinho Junior desembarca em Guarapuava na última sexta-feira, até então Ratinho Junior desembarca em Guarapuava na última sexta-feira, até então "quentíssimo" para disputar com favoritismo a pré-candidato à Presidência da República pelo PSD. Cenário se alterou em 48 horas

O governador do Paraná, Ratinho Junior (PSD), desistiu da pré-candidatura à Presidência da República e afirmou que permanecerá no cargo até o fim do mandato, em dezembro deste ano. A decisão, anunciada nesta segunda-feira (23), pegou de surpresa até o primeiro escalão do Palácio Iguaçu, e foi anunciada após uma reunião familiar de Ratinho Júnior, ocorrida ao longo do domingo. Com isso, reconfigura-se a estratégia nacional do PSD, que deverá lançar o governador goiano Ronaldo Caiado, em disputa com o governador gaúcho Eduardo Leite. A posição de Ratinho Júnior revela uma combinação de fatores políticos e pessoais que pesaram contra a candidatura, após embates acirrados com o presidenciável Flávio Bolsonaro (PL) e ataques contra os projetos empresariais comandados por seu pai, o apresentador Ratinho.

Até então, Ratinho Jr. era o nome mais competitivo do PSD nas pesquisas. Levantamento da Quaest indicava 8% das intenções de voto no primeiro turno, à frente de Ronaldo Caiado (4%) e Eduardo Leite (3%). Em simulações de segundo turno, aparecia com 33%, nove pontos atrás do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Entre todos os presidenciáveis, o paranaense era o que tinha o menor índice de rejeição. No enfrentamento político, porém, Ratinho sofreu seu primeiro revés com a ida do senador Sérgio Moro (União Brasil) para o PL, sob as bençãos de Flávio Bolsonaro para ser pré-candidato a governador no Paraná. Líder nas pesquisas, Moro oferece sérios riscos ao poder constituído por Ratinho.

A retirada, portanto, não decorre de inviabilidade eleitoral imediata, mas de um cálculo mais amplo. Nos bastidores, dois vetores foram decisivos: a resistência familiar e o risco de perda de controle sobre a sucessão estadual.

Aliados relatam que o apresentador Ratinho atuou contra a candidatura presidencial nos últimos dias. O receio central seria a ampliação do escrutínio público sobre os negócios da família, em um ambiente de campanha nacional mais agressivo e sujeito a ataques. Recentemente, as relações societárias da família Massa com o ministro Dias Toffoli, num resort de luxo no Paraná, vieram a público em meio ao escândalo do Banco Master. 

A avaliação interna é de que a disputa presidencial elevaria o custo reputacional, com potencial impacto político e empresarial – fator que, em eleições polarizadas, tende a ganhar relevância.

Sucessão estadual como variável crítica

O segundo elemento é doméstico: a sucessão no Paraná. Impedido de disputar reeleição, Ratinho Jr enfrenta um cenário adverso para emplacar um sucessor. A dificuldade aumentou após o senador Sergio Moro despontar como favorito e articular apoio com o PL, orbitando o campo bolsonarista, incluindo o senador Flávio Bolsonaro.

Nesse contexto, permanecer no governo amplia a capacidade de influência sobre a máquina estadual e sobre a construção de candidaturas. A eventual desincompatibilização até abril transferiria o comando ao vice Darci Piana (PSD), o que, na avaliação do entorno, reduziria o controle político do processo.

Hoje, entre os nomes ventilados para a sucessão estão Guto Silva (secretário das Cidades) e Alexandre Curi (presidente da Assembleia Legislativa), ambos dependentes do aval e da articulação direta do governador. O terceiro pretendente, Rafael Greca de Macedo, confirmou sua filiação no MDB nesta segunda-feira, com um discurso de apoio à pré-candidatura de Ratinho Jr, desconhecendo a decisão do governador.

Observadores próximos ao Palácio Iguaçu apostam que a presença do governador vai ser o diferencial para que o seu candidato – tudo inclina-se para Guto Silva – ganhe musculatura para enfrentar Sérgio Moro e o candidato do PDT/PT, Requião Filho, que ocupa o segundo lugar nas sondagens eleitorais. As avaliações levam em conta o alto índice de aprovação popular do governador, que, segundo as pesquisas, chega a 80%. 

Os mesmos analistas entendem que a desistência de Ratinho Jr teve outro motivo: há sérias dúvidas se o "cacique" nacional do PSD, Gilberto Kassab, levaria até o fim o apoio ao paranaense.

Impacto no PSD e no cenário nacional

Sem Ratinho Jr., o PSD perde seu candidato mais competitivo e passa a avaliar alternativas como Caiado e Leite, ambos com desempenho inferior nas pesquisas até aqui. A legenda, que busca protagonismo na disputa presidencial, terá de recalibrar sua estratégia – possivelmente negociando alianças ou reposicionando seu papel na coalizão nacional.

A decisão também sinaliza um padrão recorrente na política recente: governadores com capital eleitoral relevante que optam por preservar influência regional em detrimento de apostas nacionais de alto risco.

No caso paranaense, o movimento indica que a eleição de 2026 tende a ser definida menos por projeções nacionais e mais pela capacidade de articulação local – com o Palácio Iguaçu como centro decisório.

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