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Pressão dos EUA sobre Cuba reabre frente de atrito diplomático com o Brasil de Lula

Sanção contra lideranças brasileiras do Mais Médico é apenas um sinal do aprofundamento dos embargos norte-americanos contra Havana

14/08/2025

A decisão do governo dos Estados Unidos de cancelar vistos de autoridades ligadas a programas de cooperação médica cubana, incluindo brasileiros vinculados ao Mais Médicos, reacendeu tensões históricas na geopolítica latino-americana e colocou o governo Lula em posição sensível no tabuleiro diplomático.

O anúncio, feito pelo Departamento de Estado e liderado pelo secretário Marco Rubio, filho de imigrantes cubanos e expoente da ala mais dura contra Havana, foi justificado como uma ação contra “trabalho forçado” e um “esquema de enriquecimento” do regime de Miguel Díaz-Canel. A medida atingiu, no mesmo dia, funcionários de governos africanos, caribenhos e do próprio Brasil, além de familiares.

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O Mais Médicos, criado em 2013 no governo Dilma Rousseff, tornou-se o principal canal de entrada de médicos cubanos na América do Sul

Em seu auge, o programa chegou a ter mais de 8 mil profissionais da ilha atendendo em municípios brasileiros, muitos deles em regiões sem histórico de atração de médicos brasileiros.

Para Hugo Albuquerque, analista de geopolítica, a ofensiva norte-americana busca ampliar o isolamento da ilha e, simultaneamente, desgastar politicamente aliados estratégicos, entre eles o Brasil. “É uma provocação que a extrema direita alimenta há mais de dez anos. Foi um tema polêmico nos governos do PT justamente porque quebrava o cerco diplomático contra Cuba”, afirma.

Pilar econômico de Havana

Os serviços médicos exportados por Cuba formam um dos pilares de sua economia. Estudo do sociólogo Samuel Farber, da Universidade da Califórnia em Berkeley, indica que, em 2019, essa exportação respondeu por 46% das receitas de exportação e por cerca de 6% do PIB cubano. Segundo o Ministério da Saúde da ilha, atualmente há 24 mil médicos atuando em 56 países, em missões pagas e também gratuitas.

Washington acusa o modelo de reter parte dos salários pagos pelos governos contratantes, algo que Havana admite como parte de um esquema de redistribuição interna, justificando que a estrutura estatal garante saúde universal para a população.

Reação em bloco no Caribe

A pressão dos EUA encontrou resistência imediata entre líderes caribenhos, região onde a presença médica cubana é histórica desde os anos 1970. A primeira-ministra de Barbados, Mia Mottley, declarou que a ilha não teria superado a pandemia de Covid-19 sem médicos e enfermeiros cubanos e disse estar disposta a perder seu visto para os EUA para manter a parceria.

O primeiro-ministro de Trinidad e Tobago, Keith Rowley, classificou a acusação de “tráfico de pessoas” como ofensiva e destacou que o país paga aos cubanos valores equivalentes aos praticados localmente. Já Ralph Gonsalves, de São Vicente e Granadinas, afirmou que não encerrará o programa de hemodiálise que atende 60 pacientes por pressão externa.

Impactos para o Brasil

A medida de Washington atinge o governo Lula num momento em que o presidente busca reforçar o papel do Brasil como articulador do diálogo Sul-Sul e como contraponto à influência norte-americana no continente. A retomada de vínculos estreitos com Cuba, interrompidos durante o governo Jair Bolsonaro, integra essa estratégia.

A ofensiva também pode complicar a reativação de acordos de cooperação na saúde entre Brasília e Havana, cogitados para atender a carências em regiões remotas e em territórios indígenas. Internamente, reacende o debate político sobre a legitimidade e as condições de trabalho desses médicos, um tema que já foi explorado eleitoralmente pela oposição.

Mais de seis décadas de embargo

O bloqueio econômico imposto pelos EUA a Cuba, em vigor desde 1962, segue como pano de fundo desse embate. Apesar de condenado anualmente pela maioria dos países na ONU, o embargo continua sendo o principal instrumento de pressão norte-americana para forçar uma transição política na ilha.

Desde a Revolução de 1959, Cuba enviou mais de 600 mil profissionais de saúde a 165 países, incluindo Portugal, Espanha, Argélia, Chile, Ucrânia e Rússia. No caso brasileiro, a cooperação médica esteve diretamente ligada à expansão do acesso à saúde no interior e na Amazônia.

Perspectiva

A ofensiva de Washington deve manter a cooperação médica como ponto de atrito diplomático entre EUA, Cuba e aliados latino-americanos.

Para o Brasil, o desafio será equilibrar a defesa da soberania de sua política externa com a necessidade de preservar canais de diálogo com o governo norte-americano — algo que exigirá de Lula mais pragmatismo do que retórica.

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