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Guerra no Oriente Médio provoca corrida a postos em Guarapuava

Mas impacto no preço, se o conflito persistir, pode demorar

05/03/2026

Nas primeiras horas após a confirmação de ataques dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã, postos de combustíveis de Guarapuava registraram um movimento incomum. Em alguns estabelecimentos, o fluxo de veículos mais que dobrou nos momentos seguintes ao início das hostilidades. Motoristas temiam uma escalada do conflito e possíveis reflexos imediatos no preço da gasolina e do diesel.

Por precaução, muitos consumidores optaram por abastecer o tanque completo. A cena repetiu um comportamento típico em momentos de tensão geopolítica: a antecipação de gastos diante da expectativa de escassez ou de aumento de preços.

Apesar da reação imediata do consumidor, especialistas do setor energético avaliam que os efeitos diretos da guerra sobre o preço do combustível no Brasil tendem a ocorrer com atraso – e podem, inclusive, não se materializar no curto prazo.

Segundo o presidente do Instituto Brasileiro de Petróleo, Gás e Biocombustíveis (IBP), Roberto Ardenghy, a cadeia de abastecimento opera com contratos e estoques que amortecem oscilações bruscas no mercado internacional.

As refinarias mantêm reservas de petróleo e derivados que garantem produção por semanas ou meses. Além disso, parte relevante das compras de petróleo é feita por meio de contratos firmados anteriormente, com preços já estabelecidos.

“Na medida em que o petróleo mais caro chegar às refinarias, o custo tende a ser repassado aos contratos novos. É um processo gradual, que pode levar até seis meses”, afirmou Ardenghy.

O papel do Estreito de Ormuz

A principal preocupação dos mercados está no bloqueio do Estreito de Ormuz, corredor marítimo por onde passa cerca de um quinto do petróleo comercializado no mundo. A passagem liga o Golfo Pérsico ao Oceano Índico e é vital para exportações de grandes produtores do Oriente Médio.

O Irã ameaça restringir o tráfego na região como resposta aos ataques militares. Caso isso ocorra, a oferta global de petróleo poderia sofrer interrupções, pressionando os preços.

Ainda assim, analistas lembram que existem rotas alternativas. Países como a Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos possuem oleodutos capazes de levar parte da produção até portos fora do Golfo Pérsico. O Iraque também consegue escoar petróleo por oleodutos até a Turquia.

Essas alternativas não substituem totalmente o fluxo do estreito, mas reduzem o risco de uma interrupção completa no abastecimento global.

Brasil como produtor relevante

O impacto sobre o Brasil também é mitigado pelo avanço da produção nacional. O país produziu cerca de 3,8 milhões de barris por dia em 2025, consolidando-se entre os dez maiores produtores de petróleo do mundo.

Esse volume coloca o país em posição estratégica diante de uma possível reorganização das cadeias globais de energia. Importadores asiáticos, tradicionalmente dependentes do Oriente Médio – como China, Japão, Coreia do Sul e Índia – podem buscar diversificação de fornecedores caso o conflito se prolongue.

Nesse cenário, produtores fora da região, como o Brasil, tendem a ganhar relevância estratégica.

​Efeito indireto: fertilizantes e commodities 

Se o impacto imediato nos combustíveis é incerto, os reflexos indiretos da guerra podem ser mais amplos, sobretudo para o agronegócio.

O Irã é um importante fornecedor regional de insumos petroquímicos utilizados na produção de fertilizantes nitrogenados. Já países do Golfo Pérsico concentram parte significativa da produção global de ureia e amônia, produtos essenciais para a agricultura.

Uma escalada do conflito pode afetar cadeias logísticas e elevar os custos desses insumos. Para o Brasil – um dos maiores importadores de fertilizantes do mundo – isso poderia pressionar o custo de produção de culturas como soja, milho e trigo.

A alta do petróleo também costuma impactar diretamente o preço do frete marítimo e do diesel agrícola, dois fatores relevantes para o custo das commodities.

Paradoxalmente, produtores rurais podem se beneficiar em outra frente: o aumento das cotações internacionais de grãos e oleaginosas. Em períodos de tensão geopolítica, investidores costumam migrar para commodities agrícolas como ativos de proteção.

Entre o medo e a realidade 

No curto prazo, portanto, a corrida aos postos em cidades como Guarapuava reflete mais um efeito psicológico do que econômico.

A experiência de crises anteriores mostra que o mercado energético reage com volatilidade inicial, mas só transfere aumentos para o consumidor final quando os preços elevados se mantêm por um período prolongado.

Enquanto o desfecho do conflito permanece incerto, o impacto concreto sobre o bolso do brasileiro dependerá menos do primeiro dia da guerra e mais de sua duração – e de até onde ela pode se expandir no tabuleiro do Oriente Médio.

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