Guarapuava fora do mapa aéreo: um alerta que vai além do embarque cancelado
Fim da operação da Azul em Guarapuava era uma "tragédia anunciada". Poucos acreditaram; ninguém se preparou
03/07/2025
Por mais dolorosa que seja a constatação, Guarapuava não perdeu apenas uma rota aérea para Campinas (SP) e, agora, para Curitiba. Perdeu, sobretudo, a conexão com a realidade econômica que deveria orientar suas ambições de médio e longo prazo.
O fim da única linha aérea comercial ativa na cidade é mais do que um tropeço logístico: é um reflexo de fragilidades estruturais que há anos vêm sendo ignoradas em meio a discursos políticos autocentrados e planos de desenvolvimento que não decolam.
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A decisão da Azul Linhas Aéreas, que operava os voos regionais, não surpreende o mercado.
Mesmo diante das graves dificuldades financeiras que a empresa enfrenta, Guarapuava apresenta questionável viabilidade mínima exigida por uma malha aérea competitiva.
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A responsabilidade não deve recair apenas sobre a companhia aérea, mas sim sobre o conjunto de fatores que inviabilizaram a manutenção da operação – entre eles, a baixa integração logística regional, a escassez de atrativos empresariais e a limitada articulação entre poder público e setor privado para sustentar a conectividade aérea.
Se fosse problema exclusivo da Azul, poderíamos partir para a Gol ou a TAM. Porém, estariam estas empresas dispostas a operar em Guarapuava? O tempo, a curto prazo, nos dirá, diante da torcida de todos. Pois, considerando a ausência de debate mais amplo e sério, resta à comunidade se posicionar nas arquibancadas.
Comparações e contrastes
Guarapuava não pode perder de vista o que acontece no seu entorno. Cascavel, com aeroporto reformado e infraestrutura logística integrada à BR-277 e ao agronegócio, opera com regularidade para capitais estratégicas.
Ponta Grossa, por sua vez, transformou sua condição logística com investimentos constantes. Além de atrair grandes centros de distribuição, sua relevância como polo regional tirou de Guarapuava um investimento revelado de aproximadamente R$ 2 bilhões, com a Agrária levando daqui para os Campos Gerais todo o seu "know-how" da indústria do malte cervejeiro.
Guarapuava, embora conte com um potencial logístico expressivo – localizada no entroncamento da BR-277 e das PR 170 e 466 –, ainda sofre com limitações no sistema multimodal. A ferrovia está defasada e, é subutilizada; o transporte rodoviário é dependente de vias desgastadas e o modal aéreo está agora completamente ausente. A perspectiva de um sistema multimodal, com terminais de carga, perde-se no debate político estéril e dividido no grupismo, com ausência de poderes constituídos, como o Legislativo.
O resultado: gargalos que desestimulam novos investimentos e reduzem a atratividade do município para empresas que dependem de mobilidade e agilidade no escoamento.
Os investimentos que passaram ao lado
É inevitável mencionar o boom de investimentos industriais em cidades próximas. Campo Mourão, por exemplo, recebeu nos últimos anos a ampliação da Coamo e a instalação de novos centros de distribuição, turbinando o setor agroindustrial. Ponta Grossa se consolidou como hub logístico, com aporte bilionário em parques industriais e incentivo à inovação. Em ambas, a estratégia foi clara: criar condições para atrair, manter e escalar negócios – com infraestrutura eficiente, ambiente regulatório estável e visão coletiva de futuro.
Enquanto isso, Guarapuava parece patinar entre projetos pontuais e disputas paroquiais. A política local, muitas vezes centrada em nomes e não em planos, deixou de lado a análise fria da realidade econômica. A cidade merece uma governança estratégica, e certamente este é um dos grandes desafios da Gestão Denilson Baitala, com foco em resultados, capaz de romper com o pensamento de grupo e alinhar esforços públicos e privados em torno de metas concretas: ampliação da malha logística, consolidação de uma identidade econômica clara e modernização de seus polos produtivos.
A conta chegou. Não há voo de retorno
A perda da linha aérea comercial é um sintoma, não a doença. É o alerta de que Guarapuava precisa de uma dose de realismo. A cidade precisa olhar menos para o espelho da vaidade política e mais para o painel de controle da economia regional. Não há mais espaço para decisões baseadas em interesses imediatistas ou em narrativas que desconsideram dados concretos. Se continuar orbitando em torno de grupismos e projetos personalistas, Guarapuava corre o risco de ver sua relevância econômica e logística minguar ainda mais.
Pensar grande exige encarar os problemas com franqueza. As soluções existem, mas passam por reconhecer carências, potencialidades e trabalhar com inteligência coletiva. Guarapuava precisa voltar ao mapa estratégico do Paraná – e, para isso, precisa primeiro parar de se sabotar.
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