Guarapuava aposta em nova estratégia para enfrentar a violência contra a mulher
Proposta inclui autores de agressão no centro da intervenção
17/06/2026
Capacitação inédita reúne rede de atendimento para criar fluxo integrado de encaminhamento e fortalecer políticas de prevenção no municípioPor décadas, o enfrentamento à violência contra a mulher no Brasil esteve concentrado, sobretudo, na proteção das vítimas e na responsabilização dos agressores.
Em Guarapuava, uma iniciativa que começou nesta terça-feira (17) propõe ampliar esse eixo de atuação: além do acolhimento e da resposta institucional, o município passa a estruturar mecanismos de intervenção direcionados aos homens autores de violência.
Organizada pela Secretaria de Políticas Públicas para Mulheres, a capacitação “Framework de Intervenção para Agressores de Violência por Parceiros Íntimos” reúne profissionais que integram a Rede de Enfrentamento à Violência contra a Mulher para construir um modelo integrado de atendimento e encaminhamento dentro do município.
A formação segue até sexta-feira (19) e tem como objetivo preparar equipes técnicas para aplicar o framework, realizar avaliações dos autores de violência e desenhar um fluxo articulado entre instituições que já atuam no sistema de proteção.
Da reação à prevenção
Participam do processo representantes da assistência social, saúde, educação, sistema de justiça, universidades e demais instituições que mantêm contato direto com homens envolvidos em situações de violência.
A proposta parte de um entendimento cada vez mais presente em políticas públicas e pesquisas internacionais: reduzir episódios de violência exige não apenas respostas após a agressão, mas também estratégias que diminuam a reincidência e organizem a atuação da rede.
Segundo a assistente social e coordenadora do Centro da Mulher Brasileira, Thalyta Forquim Buco, a capacitação representa um avanço na integração dos serviços já existentes.
“A formação vem para aprimorar o trabalho que algumas instituições já desenvolvem no município e ampliar a articulação entre todos os pontos da rede de atendimento”, afirmou.
Ela destaca que parte dos participantes já possui experiência prática na temática e que o desafio agora é transformar iniciativas isoladas em um fluxo institucional permanente.
“Temos instituições da assistência social, saúde, educação, universidades e parceiros estratégicos que já trabalham diretamente com o público masculino. O objetivo é consolidar esse atendimento de forma coordenada.”
Um modelo científico aplicado pela primeira vez no país
Responsável pela condução da capacitação, o professor doutor em Psicologia Sidney Priolo Filho explica que o framework funciona como um protocolo de decisão para orientar os encaminhamentos dentro da rede.
Na prática, o modelo estabelece critérios para identificar qual instituição deve receber determinado caso, quais intervenções são mais adequadas e como monitorar os resultados ao longo do processo.
“O framework ajuda a definir para quem encaminhar, como encaminhar e qual seria o atendimento mais indicado para aquela pessoa”, explicou.
Segundo o pesquisador, o método foi publicado em uma revista científica norte-americana especializada em violência entre parceiros íntimos e está sendo implementado pela primeira vez em território brasileiro justamente em Guarapuava.
A expectativa é que a organização dos fluxos reduza sobreposição de atendimentos, melhore o aproveitamento dos recursos públicos e aumente a efetividade das intervenções.
Próximos passos
Após os três dias iniciais de formação, o município deverá entrar em uma etapa de acompanhamento técnico que se estenderá pelos próximos seis meses.
Nesse período, serão definidos indicadores, critérios de monitoramento e adaptações do modelo à realidade local.
A intenção da rede é transformar a capacitação em política pública estruturada – com capacidade de acompanhar resultados e orientar decisões futuras.
Em um cenário nacional em que o combate à violência contra a mulher permanece como desafio permanente, Guarapuava tenta abrir espaço para uma abordagem que combina proteção, integração institucional e prevenção da reincidência.
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