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Cooperativa Agrária confirma investimento de R$ 2,2 bi em aviários e frigorífico

Com obras na PRC-466, Ratinho Jr. afirma que região de Guarapuava caminha para “um novo ciclo econômico”

12/12/2025

Quando o governador do Paraná, Ratinho Junior, desembarcou em Guarapuava nesta quinta-feira 11, a coreografia era típica de um governo que deseja projetar confiança no futuro econômico: empresários alinhados, prefeitos mobilizados, secretários bem-posicionados e anúncios cuidadosamente preparados. O que acabou destoando desse diapasão, foi o presidente da Cooperativa Agrária, Adam Stemmer, que usou de poucas palavras para agradecer e anunciar: em 2026, a Cooperativa inicia sua inserção no setor de proteína animal, com a cadeia integrada de aves, com investimento de R$ 2,2 bilhões, além do R$ 1,1 bilhão na expansão da maltaria Agromalte.

A promessa da Agrária representa algo mais profundo do que apenas um novo frigorífico: sinaliza a transição de uma cooperativa fortemente ancorada na produção de grãos e malte para um modelo de maior agregação de valor e verticalização competitiva. Se implementado conforme previsto – após uma assembleia marcada para março de 2026 –, o projeto deverá alavancar a estrutura econômica do distrito de Entre Rios, com reflexos no entorno de Guarapuava. O projeto é inteiro destinado aos associados da Agrária, mas terá reflexos em diversos setores da economia.

Lideranças políticas e empresários do agro: perspectivas para Guarapuava evoluir na economia primária

O anúncio de Adam Stemmer, que estava acompanhado do secretário Cristian Abt, ainda que monumental, foi apenas um elemento de um dia em que o governo estadual buscou transmitir a sensação de que a região de Guarapuava está às vésperas de “um salto histórico”. A infraestrutura, a velha pedra no sapato do desenvolvimento brasileiro, foi apresentada como o eixo do “novo ciclo” territorial.

O discurso de Ratinho Jr. e dos secretários Sandro Alex (Infraestrutura e Logística) e Guto Silva (Cidades) seguem a lógica de que os investimentos na PRC-466, entre Guarapuava e Pitanga, abrem um novo eixo de desenvolvimento agroindustrial nesse trecho de 89 quilômetros.

É o caso de Guarapuava, no Distrito Industrial Atalaia, onde duas empresas antigas já estão instaladas, a Millpar e a Repinho, que constrói uma das maiores fábricas de MDP do Brasil, além da C3 (setor alimentício), do empresário Paulo Wolbert, anfitrião da solenidade desta quinta-feira.

Em Turvo, não há nenhum movimento nesse sentido, ainda, nem em Manoel Ribas e outros municípios próximos. Seria necessário um intenso movimento político de lideranças regionais, junto com técnicos, universidades e outros segmentos, para criar um projeto econômico.

Nisso reside a importância de um autêntico complexo logístico, com modal de transporte aéreo de passageiros e de carga, modernização da ferrovia e duplicação de rodovias estratégicas, como a BR-277.

O projeto do novo aeroporto de Guarapuava (que foi reconstruído em 2019) é apenas de passageiros, com pista de 1.800 metros, menor que o de Ponta Grossa (2.200 metros) e prevê várias etapas.

Uma rápida consulta a empresários e investidores seria o suficiente para constatar que um modal aéreo de cargas é tão importante quanto o de passageiros, pois rapidez e alcance no transporte fazem a diferença numa economia competitiva. Outras regiões do Paraná, em pleno desenvolvimento, acordaram faz tempo para essa realidade.

Enquanto isso, empresários de Guarapuava fazem uma verdadeira ginástica para potencializar os recursos públicos. É o caso de Odacir Antonelli, do Grupo Repinho. O projeto da trincheira de 520 metros que será construída na PRC-466, orçada em R$ 16,6 milhões, foi patrocinado pelo empresário. A obra será licitada pela prefeitura local e integra o mesmo corredor onde avança a duplicação em concreto de 11,5 quilômetros até o distrito de Palmeirinha – hoje com 87% de execução. Paralelamente, uma nova marginal de acesso ao Distrito Atalaia, estimada em R$ 18,8 milhões, também foi autorizada.

A PRC-466 tornou-se, assim, o símbolo mais tangível de uma almejada “transformação industrial. A narrativa oficial se apoia na ideia de que esse corredor viário se tornará uma artéria logística. A base está lançada. Mas, um olhar para as regiões próximas, como a Norte (Maringá e Londrina), Oeste (Cascavel) e Campos Gerais (Ponta Grossa) coloca a região de Guarapuava de volta à terra, para entender que há muito caminho a ser percorrido – com logística adequada, infraestrutura e políticas de governo (estadual e municipais) que potencializem uma economia que nasceu com vocação agropecuária, primária, e tem todas os elementos para se industrializar.

Governador Ratinho Jr. e o prefeito de Guarapuava, Denilson Baitala: agenda positiva com obras e novos projetos

Promessas maiores que cronogramas

As ambições estaduais transcendem a PRC-466. Em Guarapuava, três projetos atraem atenção pela capacidade de reconfigurar o território – e pela incerteza que carregam:

A duplicação da PR-170, entre a BR-277 e o Rio Jordão, é defendida há anos. O governo diz que a obra está confirmada, mas ainda não há licitação, cronograma nem garantias formais de execução.

O novo Aeroporto Regional, orçado em R$ 113 milhões, teve seu projeto entregue ao Estado – financiado por empresários locais ao custo de R$ 600 mil. A resposta oficial foi protocolar: o material “será avaliado tecnicamente”. A história da infraestrutura aeroportuária brasileira sugere que avaliações técnicas costumam demorar mais do que todos gostariam.

E há a onipresente BR-277. O secretário de Infraestrutura afirmou que toda a rodovia, de Foz do Iguaçu a Paranaguá, será duplicada, incluindo o trecho crítico da Serra da Esperança. Contudo, o contrato da Serra, com a concessionária EPR, prevê que a duplicação desse gargalo está prevista somente para depois de 2030. De concreto, há apenas a duplicação do trecho Irati a Palmeirinha, numa extensão de 27 quilômetros, que se inicia nesta segunda-feira, na área da concessionária Via Araucária.

O eleitor como cronômetro

Sobre todas essas iniciativas paira um complicador inevitável, o calendário eleitoral de 2026. A legislação brasileira restringe novas licitações, convênios e contratações a partir de abril do ano eleitoral. Isso significa que qualquer obra que ainda não tenha contrato assinado nos próximos meses estará sujeita a atrasos quase automáticos – especialmente em projetos de grande porte, que exigem licenciamento, desapropriação e garantias técnicas.

A ironia é evidente. À medida que o governo intensifica anúncios e reforça seu discurso desenvolvimentista, o tempo disponível para iniciar novos empreendimentos encurta. E Guarapuava, apesar da onda de otimismo, pode terminar 2026 com menos obras iniciadas do que sugere o entusiasmo atual.

A soma de investimentos privados (como os da Agrária e da Repinho) e públicos (nas duplicações rodoviárias em andamento) cria um ambiente de dinamismo significativo para o interior do Paraná. A geração de novas lideranças, políticas e empresariais, estão conscientes da importância de logística, mas, à maneira clássica brasileira, o futuro projetado depende da concretização de obras anunciadas antes do prazo – e de governos que não tenham medo das despesas inerentes à infraestrutura pesada. Guarapuava vive um momento decisivo: pode se transformar em um polo econômico de alcance estadual ou, alternativamente, tornar-se um compêndio de boas intenções engavetadas, à espera de que o futuro tenha caixa (e disposição) para dar sequência ao que foi prometido.

Por ora, a cidade celebra o que está em execução e observa, com pragmatismo paranaense, o que foi prometido. Como sempre, será o cronograma – e não o discurso – que definirá o destino do “novo ciclo”.

Após a solenidade na PRC-466, o governador inaugurou o Condomínio do Idoso.

Também acompanharam os eventos o presidente da Assembleia Legislativa do Paraná, Alexandre Curi; os prefeitos Denilson Baitala (Guarapuava) e Marcos Seguro (Turvo); o diretor-presidente do DER/PR, Fernando Furiatti; da Cohapar, Jorge Lange; e o deputado estadual Artagão Junior.

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