Combate ao Feminicídio expõe desafio permanente: violência contra mulheres é rotina diária
Estatísticas e especialistas mostram que violência de gênero permanece enraizada na cultura e nas desigualdades sociais
22/07/2026
Criada em memória da advogada Tatiane Spitzner, assassinada em Guarapuava, data reforça necessidade de prevençãoO Dia Estadual de Combate ao Feminicídio, lembrado em 22 de julho, nasceu da dor de um crime que chocou o Brasil. A data foi instituída pela Lei Estadual nº 19.873/2019 em memória da advogada Tatiane Spitzner, assassinada em Guarapuava em 22 de julho de 2018, caso que se tornou símbolo nacional da violência de gênero e impulsionou mudanças na discussão sobre políticas públicas de proteção às mulheres no Paraná.
Passados oito anos do crime, o cenário revela avanços institucionais importantes, mas também uma realidade persistente. A violência doméstica continua figurando diariamente entre as principais ocorrências registradas pelas polícias em praticamente todos os municípios da região Central do Paraná, incluindo Guarapuava, Pitanga, Prudentópolis, Laranjeiras do Sul, Turvo, Candói, Palmital, Reserva do Iguaçu e municípios vizinhos.
Embora nem toda violência doméstica evolua para feminicídio, especialistas alertam que praticamente todos os feminicídios são precedidos por um histórico de agressões físicas, psicológicas, patrimoniais, morais ou de ameaças.
Manifestação em Guarapuava (no alto), numa corrente que toma conta do Brasil inteiro: um alerta de que a violência diária é o estopim para crimes brutais contra as mulheres
O CASO QUE CHOCOU O MUNDO
Tatiane Spitzner foi jogada pelo próprio marido, Luiz Felipe Manvailer, do apartamento onde o casal residia, no quarto andar de um prédio no centro de Guarapuava. Investigações do Ministério Público apontaram que Tatiane foi morta antes, por esganamento, depois de sofrer vários tipos de agressões. Manvailer cumpre pena de 30 anos na Penitenciária de Guarapuava
Números mostram dimensão do problema
Levantamentos divulgados por instituições que monitoram a violência contra as mulheres apontam que o Paraná continua registrando uma média preocupante de casos.
Entre janeiro e junho de 2025, foram identificados 179 casos de feminicídios consumados e tentados, média próxima de um caso por dia. Apesar da redução em relação ao mesmo período de 2024, os números permanecem elevados e demonstram que o problema está longe de ser superado.
Em Guarapuava e na região Central, ainda que os feminicídios sejam menos numerosos do que em grandes centros urbanos, os boletins policiais revelam frequência constante de:
- violência doméstica;
- lesão corporal;
- ameaças;
- descumprimento de medidas protetivas;
- perseguição (stalking);
- cárcere privado;
- violência psicológica.
Na prática, essas ocorrências representam os primeiros estágios de um ciclo que, quando não interrompido, pode culminar no assassinato da vítima.
A violência começa e se consolida dentro de casa
Para pesquisadores da área de segurança pública e violência de gênero, o feminicídio não é um crime impulsivo ou isolado.
Ele normalmente representa o último estágio de um processo marcado por controle, ciúmes, isolamento social, dependência econômica e sucessivas agressões.
Especialistas apontam que diversos fatores contribuem para esse cenário:
- permanência da cultura machista;
- naturalização da violência dentro da família;
- educação baseada em relações desiguais entre homens e mulheres;
- abuso de álcool e drogas como fator potencializador;
- dependência financeira da vítima;
- dificuldade de romper relacionamentos abusivos;
- medo de denunciar;
- sensação de impunidade por parte dos agressores.
Pesquisas também indicam que homens que cresceram em ambientes marcados por violência doméstica possuem maior probabilidade de reproduzir esse comportamento na vida adulta, perpetuando um ciclo intergeracional da violência.
O desafio vai além da repressão
Desde o assassinato de Tatiane Spitzner, o Paraná ampliou significativamente sua rede de enfrentamento à violência contra a mulher.
Entre as iniciativas estão:
- Delegacias Especializadas de Atendimento à Mulher;
- Patrulha Maria da Penha em diversos municípios;
- ampliação das medidas protetivas;
- Casas da Mulher Brasileira;
- campanhas permanentes de conscientização;
- Caminhada do Meio-Dia contra o Feminicídio;
- fortalecimento da Rede de Proteção à Mulher;
- programas estaduais voltados ao atendimento das vítimas.
O Ministério Público do Paraná também desenvolve ações permanentes de enfrentamento à violência doméstica, atuando na fiscalização da aplicação da Lei Maria da Penha, na promoção de campanhas educativas, no acompanhamento de processos e no fortalecimento da rede de proteção às vítimas. A instituição ressalta que combater o feminicídio exige atuação integrada entre Justiça, segurança pública, assistência social, saúde e educação.
A educação familiar é uma das bases para uma sociedade mais justa e humana. Na atual realidade, políticas de Estado, em apoio à rede de proteção às mulheres vítimas de violência, também é indispensável e se associam a programas de emprego e renda
Denunciar cedo salva vidas
Especialistas são unânimes ao afirmar que políticas públicas eficientes não dependem apenas da punição dos autores.
O enfrentamento passa por:
- educação para igualdade de gênero desde a infância;
- autonomia econômica das mulheres;
- acolhimento psicológico;
- fortalecimento das redes familiares;
- agilidade na concessão de medidas protetivas;
- responsabilização efetiva dos agressores.
Também alertam que sinais frequentemente ignorados – como controle excessivo, isolamento da vítima, ciúmes extremos, humilhações e ameaças – costumam anteceder episódios de violência física.
Memória que se transforma em mobilização
O caso Tatiane Spitzner marcou profundamente o debate nacional sobre feminicídio. As imagens das agressões registradas por câmeras de segurança romperam a invisibilidade de uma violência que, durante décadas, permaneceu restrita ao ambiente doméstico.
Ao transformar a data de sua morte no Dia Estadual de Combate ao Feminicídio, o Paraná buscou fazer da memória uma ferramenta de conscientização.
Ainda assim, a realidade cotidiana mostra que o desafio permanece enorme.
Nos plantões policiais da região Central do Estado, a violência contra mulheres continua aparecendo quase diariamente entre as principais ocorrências registradas. A constância desses casos reforça a avaliação de especialistas: o feminicídio não será reduzido apenas com prisões e penas mais severas, mas sobretudo com mudanças culturais profundas, prevenção, educação e fortalecimento das políticas públicas de proteção.
Importante: Em respeito às diretrizes de proteção às vítimas e para evitar revitimização, esta reportagem não identifica nominalmente outras mulheres vítimas de violência no Paraná ou em Guarapuava, além da referência histórica a Tatiane Spitzner, cujo caso fundamenta a criação oficial da data estadual.
▪ Veja também
Recomendado para você
Todo mundo fala
-
TRÂNSITOColisão na BR-277 provoca incêndio, mata motorista e deixa sete feridos graves em Candói -
JUSTIÇA TCE confirma irregularidades no transporte coletivo de Guarapuava e manda investigar renovação de contrato da Pérola do Oeste -
POLÍTICAPré-campanha segue em campo -
SEGURANÇA Acusado de matar homem em frente a escola vai a júri popular em Guarapuava
