Como Guarapuava aprendeu a conviver com as temperaturas mais baixas do Estado
Frio está no DNA do povo da Região Central do Paraná
23/06/2025
Na madrugada gelada desta segunda para terça-feira, os termômetros de Guarapuava, num dos picos mais altos da Serra do Paraná, marcam de-2°C a -4°C. Há previsão de geada negra cobrindo as lavouras, o vento cortante soprando com força pelas ruas e, mesmo assim, será possível encontrar um guarapuavano tomando café quente nas padarias, com o mesmo semblante sereno de sempre. Para ele, o frio não é uma novidade – é um traço de identidade.
Guarapuava é, tradicionalmente, uma das regiões mais frias do Paraná. E em semanas como esta, quando uma poderosa massa de ar polar avança sobre o Estado, esse título se reafirma com força. A cidade, situada a 1.127 metros de altitude e cercada por campos e matas, amanhece entre as mais geladas do Brasil. E isso não é incomum. No imaginário local, resistir ao frio faz parte do cotidiano tanto quanto o chimarrão ou o culto dominical.
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Para entender Guarapuava, é preciso sentir seu inverno. Ao contrário de cidades onde o frio é apenas um intervalo breve entre estações, aqui ele molda hábitos, arquitetura e até o modo de se vestir. Em junho, julho e agosto, é comum ver crianças indo à escola de touca, cachecol e luvas, e adultos já calejados puxando lenha para alimentar fogões ou lareiras que ainda fumegam em muitas casas.
Quem mora aqui se acostuma.É de bom tom não temer o frio, e sim se prepara. Coberta extra no carro para evitar o gelo, chocolate quente , e se chega a geada.... Bueno, que linda fica a paisagem! Claro, se isto não estragar as lavouras, pois aí é tristeza profunda.
Geada negra, ventos cortantes e chuva congelada
A frente fria que cruza o Paraná traz ventos de até 93 km/h, pancadas de chuva de mais de 60 mm e um risco raro: chuva congelada. Em Guarapuava, o Simepar registrou 62,6 mm de chuva em menos de 9 horas — sendo 20 mm em apenas 15 minutos na região do distrito de Entre Rios.
Com o anúncio de madrugada congelante, agricultores voltaram a temer a temida geada negra – fenômeno que, ao congelar internamente a seiva das plantas, pode destruir lavouras inteiras sem sequer deixar cristais visíveis sobre as folhas. Não é só bonito de ver. É um risco real para a agricultura.
O DNA gelado do guarapuavano
A origem do frio que assola Guarapuava não é apenas climática. A cidade tem raízes profundamente ligadas à imigração europeia – especialmente alemães, ucranianos e poloneses –, povos acostumados a invernos rigorosos. Essa herança se reflete no paladar (comidas calóricas, fermentadas, defumadas), na arquitetura (paredes grossas, casas com forro e lareira) e no comportamento: um certo pragmatismo diante da adversidade.
Na verdade, o frio é um patrimônio cultural dos guarapuavanos, condição que, em outras regiões do Brasil, e também do exterior, são exploradas pelo turismo em larga escala.
Apesar do desconforto que o inverno rigoroso pode trazer, muitos moradores veem nele um diferencial positivo. O clima atrai turistas, valoriza produtos típicos e ajuda a preservar tradições. Há quem sonhe com a neve – mesmo sabendo que ela raramente chega, como ocorreu em 2013 – e quem conte os dias para o Festival de Inverno, que reúne música, dança e gastronomia nos meses mais frios.
Nesta semana, com os termômetros negativos e a previsão de novas geadas até o fim de junho, Guarapuava reafirma seu lugar no mapa como a capital paranaense do frio. E seus moradores seguem em frente com um orgulho silencioso –, um bom café, uma cuia de chimarrão ou garrafa de vinho na mão.
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