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Manifesto cobra resgate da memória histórica de Guarapuava e denuncia desaparecimento de patrimônio

Advogado e escritor Milton Luiz Cleve Küster lança documento durante apresentação de seu primeiro livro e pede ação imediata para preservar a identidade histórica do município

21/06/2026

A noite de lançamento do livro “Reflexões de uma Vida em Movimento” ganhou um tom de mobilização cívica nesta terça-feira (9), em Guarapuava. Durante o evento realizado na sede do Instituto Histórico e Geográfico de Guarapuava (IHGG) e da Academia de Letras, Artes e Ciências de Guarapuava (Alac), o advogado e escritor guarapuavano Milton Luiz Cleve Küster apresentou o Manifesto pela Memória de Guarapuava, documento que reúne críticas ao estado de conservação do patrimônio histórico local e uma série de propostas para sua preservação. 

Mais do que um texto de homenagem ao passado, o manifesto se apresenta como uma denúncia. Küster afirma que a cidade vive um processo de “apagamento” de sua própria história e corre o risco de se tornar uma “cidade sem memória”, incapaz de reconhecer os elementos que construíram sua identidade ao longo de mais de dois séculos. 

O documento foi lançado diante de convidados, pesquisadores, juristas, escritores e representantes da comunidade cultural, transformando o lançamento literário em um ato público de defesa do patrimônio histórico guarapuavano. 

Entre os presentes, a deputada estadual Cristina Silvestri, a secretária municipal (Cultura) Rossana Manfredini (representando o prefeito Denilson Baitala), a vereadora Rita Felchak (representannte do Poder Legislativo, a presidente da OAB local, Hamidy Omar Safadi Kassmas, o presidente do IHGG, Vanderley Rosa Edling, e da Alac, Magdalena Nerone, o sargento Ricardo Caldas (loja maçônica Philantropia), Aldo Matozo (representando o deputado estadual Artagão Júnior), os ex-prefeitos Fernando Carli e Cândido Pacheco Bastos, junto a um seleto público da sociedade guarapuavana.

O desaparecimento de relíquias históricas

Um dos pontos centrais do manifesto é a denúncia do desaparecimento de dois bens considerados de grande valor histórico para a cidade: um retrato do pioneiro Luiz Daniel Cleve e um exemplar da primeira edição do jornal O Guayra, impresso em seda e doado ao Museu Municipal em 1982. Segundo Küster, os itens não foram localizados por pesquisadores que estudaram a história da imprensa regional.

Para o autor, a perda desses objetos representa mais do que uma falha administrativa. Trata-se de um “atentado contra o patrimônio coletivo”, já que ambos fazem parte da formação histórica e cultural de Guarapuava. 

O manifesto também aponta a situação da Praça Cleve como símbolo do abandono da memória local. O espaço, dedicado a um dos pioneiros da cidade, trisavô do escritor, é descrito como um local sem a valorização compatível com sua relevância histórica.

Uma cidade que esquece o próprio passado

Ao longo do texto, Küster sustenta que Guarapuava possui uma das trajetórias mais relevantes do Paraná, marcada pela ocupação dos Campos de Guarapuava, pelo tropeirismo, pela economia da erva-mate, da madeira e da pecuária, além de uma forte tradição intelectual.

O autor recorre a pesquisas acadêmicas, dissertações e estudos históricos para argumentar que a identidade guarapuavana já foi amplamente documentada por pesquisadores, mas continua sem políticas públicas efetivas de preservação. Entre os nomes citados estão historiadores e estudiosos que dedicaram décadas ao resgate da memória regional. 

Em uma das passagens mais contundentes, o manifesto compara Guarapuava à cidade fictícia de Fedora, descrita pelo escritor italiano Ítalo Calvino em "As Cidades Invisíveis": um lugar que idealiza seu passado, mas permite que suas referências concretas desapareçam.

Oito propostas para preservar a história

Como resposta ao cenário descrito, o manifesto apresenta oito reivindicações dirigidas ao poder público e à sociedade civil.

Entre elas estão a abertura de uma investigação oficial sobre o desaparecimento de bens históricos, o tombamento da Praça Cleve, a criação de um inventário digital do patrimônio municipal, a implantação de um Conselho Municipal de Memória e a inclusão da história de Guarapuava no currículo das escolas municipais. 

O documento também propõe a criação de um “Dia da Memória de Guarapuava”, a publicação periódica de relatórios sobre a gestão do patrimônio histórico e a construção de um Centro Integrado de Memória e Documentação.

Segundo Küster, a proposta busca reunir em um único espaço documentos, fotografias, acervos e registros históricos hoje dispersos em diferentes instituições, facilitando o acesso de pesquisadores e garantindo melhores condições de conservação. 

Projeto para revitalizar a Praça Cleve

Entre as iniciativas anunciadas está a intenção da família Cleve de doar ao município um projeto de revitalização da Praça Cleve. O trabalho deverá ser elaborado pelo arquiteto e urbanista João Gabriel Küster Cordeiro (Curitiba), tetraneto de Luiz Daniel Cleve. 

A proposta surge em meio ao debate sobre a preservação dos espaços públicos ligados à história da cidade e reforça o caráter propositivo do documento.

Um chamado à mobilização

Encerrando o texto, Küster convoca historiadores, professores, estudantes, empresários, artistas, representantes da imprensa, vereadores e promotores de Justiça a participarem da defesa do patrimônio histórico local.

O manifesto foi oficialmente datado de 9 de junho de 2026, mesma data do lançamento de “Reflexões de uma Vida em Movimento”. Para o autor, o documento pretende marcar o início de uma nova etapa na preservação da memória guarapuavana.

“A omissão não é mais uma opção aceitável”, afirma o texto, que define a iniciativa como um compromisso com a verdade histórica e com as futuras gerações. 

Após a leitura do manifesto, diversas pessoas deram seu testemunho sobre a importância de preservação da memória e do patrimônio histórico. 

A secretária Rossana Manfredini lembrou que é de família tradicional da cidade e mencionou seu trabalho em conjunto com o IHGG e com a Comissão Municipal de Memória, mapeando pontos históricos que podem ser preservados. "São vários pontos, mas são pontos, não exatamente um centro", explicou. Uma das dificuldades, disse ela, é que as famílias aceitem preservar os imóveis, deixando de transformar em bens imobiliários (construção de um edifício, por exemplo).

Milton Küster revelou que fez contato com o secretário municipal de Planejamento, Thiago Pfann, em busca da melhor solução para a Praça Cleve – existindo disposição do Executivo Municipal para a parceria com a Família Cleve Küster.

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