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Como as cervejarias artesanais transformaram Guarapuava na capital emocional da cevada e do malte

A festa e o brinde: o cardápio líquido de uma nova cultura guarapuavana

12/11/2025

No início, havia o chimarrão. Fumaça, cuia, roda de conversa, tradição herdada dos indígenas e consolidada pelos tropeiros. Mas em algum momento, o guarapuavano descobriu outro líquido que também aquece – ou, no caso, refresca – o espírito coletivo: a cerveja artesanal.

A antiga cidade de clima temperado, pastos úmidos e sotaque forte do “guarapuavês” (mistura do indígena, com o preto e o português), trançado com o dialeto suábio (“schwäbisch”), o polonês, ucraniano, italiano e outras etnias, passou a ter cheiro de cevada tostada. E o que antes era apenas uma plantação agrícola, virou símbolo cultural.

Das terras de Entre Rios, onde a produção de cevada começou em meados de 1970, dividindo áreas com o trigo, até o início da fabricação do malte na Agromalte (1981), paulatinamente um grupo de cervejeiros foi transformando fundos de quintal em pequenas indústrias, chegando a marcas premiadas internacionalmente.

Agora, entre os dias 14 e 16 de novembro, Guarapuava vai celebrar sua nova identidade na 1ª Festa Nacional da Cevada e do Malte. A promessa é simples: cerveja, música e o inevitável “quem dirige não bebe” – com ônibus gratuitos para os que aceitarem o chamado etílico da pátria guarapuavana.

A espuma da história

Toda epopeia tem seus pioneiros, e aqui eles atendem por sobrenomes germânicos.

Harry Reinerth, da Donau Beer, recorda 2004 como o ano da virada. “A ideia era só engarrafar cerveja. Mas os amigos começaram a vir, e a coisa foi crescendo”, conta. O pai, marceneiro de profissão e teutônico de alma, construiu mesas e bancos no estilo bávaro. O resultado: um restaurante que parece uma filial de Munique encravada no Paraná, na encantadora Colônia Chacoeira, uma das cinco aldeias de Entre Rios. A Donau segue à risca a Reinheitsgebot, a lei de pureza alemã, como se dissesse que tradição também se bebe.

A poucos quilômetros dali, de frente para a história Praça Cleve, na cidade de Guarapuava, no Armazém do Mate, outro galpão cheira a lúpulo e obstinação, Leonardo Sampaio e Thomaz Felipe mexiam panelas em 2010. O hobby virou negócio em 2016. Hoje, a Hank Bier exibe 58 medalhas – e uma clientela que pronuncia IPA com o sotaque do Centro-Sul paranaense.

Das panelas à devoção

Larissa Vier, da Água do Monge, jura que o segredo está na fonte – literalmente. A água usada vem do Parque do Jordão, a mesma que, segundo o folclore, curava enfermos pela bênção do monge João Maria. O líquido agora cura outras coisas: a rotina, a pressa, a sede de viver num lugar que finalmente aprendeu a brindar a si mesmo.

Na Cervejaria Suábia, o milagre vem da técnica. Thomas Gärtner e Alexander Weckl decidiram estudar o ofício a fundo: um se especializou em produção, o outro virou mestre cervejeiro na Alemanha. O resultado é uma cerveja precisa, que parece ter saído de um compasso.

Enquanto isso, a Heimdall, nascida em 2020 “de uma reunião entre amigos ambiciosos”, aposta no nome de um deus nórdico e na crença de que a cevada guarapuavana pode enfrentar qualquer Valhala comercial.

Família, fé e fermento

Há também quem leve o nome ao pé da letra. A Cervejaria Irmandade, fundada por Ricardo de Almeida e amigos, começou como um encontro para cozinhar – comida e cerveja – em 2014. “Na realidade, o nascimento aconteceu pela paixão de se reunir com os irmãos”, explica. A Aurora Goiaba Sour, criação provocativa e aromática, é a tradução líquida dessa comunhão.

Já a Cervejaria Jordana, primeira instalada na área urbana, vem de outra linhagem: os Mocellin Lopes, família que há 35 anos trabalha com alimentos e decidiu migrar do leite para o lúpulo. A cerveja, no caso, também é uma forma de nutrição – emocional.

A geografia da cevada

Em Guarapuava, o campo e o copo convivem em harmonia quase religiosa. Os agricultores de Entre Rios continuam colhendo o grão que abastece as cervejarias locais, agora com a satisfação de ver o produto final sendo brindado a poucos quilômetros de onde nasceu.

“Vemos o plantio, a colheita e a malteação. Isso é um orgulho bastante grande”, diz Harry Reinerth, da Donau. Leonardo Sampaio, da Hank, completa: “É mostrar que esse insumo nobre é transformado em cervejas reconhecidas nacional e internacionalmente”.

Roteiro etílico (com segurança)

Para quem quiser testar o paladar, as recomendações são quase um mapa do tesouro líquido:

  • Donau indica a Gota Dourada, German Pilsner de alma clássica.
  • Heimdall sugere a Pilsen Lager Tha, leve, com notas de casca de pão.
  • Água do Monge aposta na Pilsen Premium, feita com maltes locais.
  • Hank convida ao risco com a Strong Dark, inspirada nas abadias belgas.
  • Irmandade, fiel à ousadia, oferece a Aurora Goiaba Sour — a cerveja que poderia nascer só em Guarapuava.

No fim, o brinde é coletivo. Da Donau à Jordana, da panela ao pódio, a cidade confirma que seu título de Capital da Cevada e do Malte não se mede em litros, mas em histórias fermentadas com orgulho e amizade.

E se o chimarrão ainda resiste nas rodas das manhãs frias, à noite o guarapuavano troca a cuia pelo copo. Afinal, toda tradição precisa de companhia – e espuma.

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