Cirurgia bariátrica para adolescentes: avanço clínico ou risco precoce?
Procedimento tem autorização do Conselho Federal de Medicina
20/05/2025
A autorização para a realização de cirurgia bariátrica em adolescentes a partir dos 14 anos, aprovada pelo Conselho Federal de Medicina (CFM), marca um ponto de inflexão no tratamento da obesidade grave no Brasil. A mudança traz impactos éticos, clínicos e sociais significativos, especialmente em um país onde o número de jovens com obesidade aumentou drasticamente na última década.
O que mudou?
Antes da nova resolução, adolescentes com menos de 16 anos só poderiam realizar a cirurgia em caráter experimental, sob critérios rígidos de pesquisa. Agora, adolescentes a partir de 14 anos com IMC maior que 40 e comorbidades podem se submeter ao procedimento, desde que haja avaliação multidisciplinar e consentimento dos responsáveis.
Justificativa científica
O relator da medida, Dr. Sérgio Tamura, afirma que a cirurgia não afeta o crescimento ou a puberdade e pode ser segura e eficaz quando bem indicada. Com 60% das crianças obesas caminhando para a obesidade mórbida na vida adulta, a intervenção precoce ganha defensores entre endocrinologistas e cirurgiões bariátricos.
Questões éticas e psicológicas
Apesar dos avanços técnicos e do histórico clínico de sucesso em adultos, realizar um procedimento irreversível em adolescentes ainda em desenvolvimento físico e emocional levanta dilemas éticos importantes:
- Adolescentes têm maturidade para compreender riscos e consequências?
- A cirurgia pode agravar ou amenizar quadros de transtornos alimentares ou de imagem corporal?
- O quanto o fator socioeconômico influencia a decisão de uma família pela cirurgia?
Desigualdades no acesso
A resolução exige que a cirurgia seja realizada em hospitais de alta complexidade, com UTI e equipe especializada, o que pode limitar o acesso a jovens de regiões periféricas ou com menos recursos. Assim, a política corre o risco de reforçar desigualdades, beneficiando apenas quem pode recorrer à rede privada ou centros públicos de referência.
Caminho multidisciplinar e prevenção
Apesar do avanço na regulamentação, especialistas continuam a defender que a cirurgia seja a última etapa de um longo processo de tratamento que inclua acompanhamento nutricional, psicológico, endocrinológico e apoio familiar. A prevenção da obesidade por meio de políticas públicas de alimentação saudável, educação física e regulação de ultraprocessados continua sendo a estratégia mais eficaz e justa a longo prazo.
A Resolução CFM nº 2.429/25 reflete uma tentativa de adaptar a medicina às novas realidades epidemiológicas, nas quais a obesidade grave já atinge faixas etárias cada vez mais jovens. No entanto, a mudança exige vigilância ética, acesso equitativo e políticas públicas complementares, sob o risco de transformar a exceção em regra e negligenciar o enfrentamento das raízes sociais e ambientais da obesidade infantil.
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