UPAs de Guarapuava registram explosão na emissão de atestados médicos; setor empresarial reage
Levantamento da Secretaria Municipal de Saúde mostra que, entre janeiro e junho deste ano, foram emitidos 29.210 atestados médicos apenas na UPA do Batel
30/07/2025
Atestados na UPA do Batel, uma das unidades investigadas: volume, considerado anormal, tem picos às segundas-feiras – só em junho foram 1.877 nesse dia da semanaUm relatório interno da Secretaria Municipal de Saúde de Guarapuava apontou um crescimento expressivo e fora do padrão na emissão de atestados médicos nas Unidades de Pronto Atendimento (UPAs) do município. No primeiro semestre de 2025, a UPA do bairro Batel registrou 29.210 atestados – o maior número entre todas as unidades. O dado que mais chama a atenção é a concentração nas segundas-feiras: apenas no mês de junho, foram 1.877 documentos emitidos neste dia, indicando possível uso fora do normal do sistema de saúde para obtenção de afastamentos.
A Associação Comercial e Empresarial de Guarapuava (ACIG) reagiu oficialmente ao levantamento, numa nota expedida pela assessoria de imprensa nesta quarta-feira, expressando preocupação com os efeitos do fenômeno sobre o setor produtivo local, em especial micro e pequenas empresas. A entidade argumenta que o excesso de afastamentos compromete a operação das empresas e agrava a sobrecarga de pessoal, além de gerar desconfiança nas relações de trabalho.
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Na nota, a ACIG cobra uma discussão mais ampla entre empregadores, trabalhadores e poder público. “Reconhecemos a autonomia médica, mas é preciso debater com seriedade os impactos desse volume sobre a economia local. A boa-fé deve ser o princípio nas relações trabalhistas”, afirmou a entidade.
Secretaria defende critérios técnicos
Diante da repercussão, a Secretaria de Saúde divulgou uma nota de esclarecimento reforçando que a orientação aos médicos é a emissão de atestados com base em “critérios técnicos e éticos” previstos em normativas do Conselho Federal de Medicina e do Conselho Regional do Paraná. A pasta cita, entre outras normas, a Resolução CFM nº 2.381/2024 e o parecer CRM-PR nº 2.869/2021, que garantem ao médico autonomia para determinar o tempo de afastamento com base na avaliação clínica individual do paciente.
Foi a própria Secretaria que tomou a iniciativa de fazer o levantamento e fazer o alerta, em vista do grande número atestados.
A nota da Secretaria também esclarece a diferença entre atestados e declarações de comparecimento. “Nem todo atendimento resulta em afastamento das atividades. Quando não há indicação clínica, o paciente recebe apenas a declaração do tempo de permanência na unidade”, informa o texto.
Segundo a gestão municipal, o aumento pode estar relacionado a um conjunto de fatores, incluindo a pressão por justificativas formais no ambiente de trabalho, dificuldade de acesso a consultas regulares na atenção primária e até mesmo um possível desvirtuamento da finalidade dos atendimentos de urgência e emergência. No primeiro caso, os médicos agem sob pressão do paciente, que chega às unidades de saúde com queixas que induzem à necessidade de afastamento do trabalho para “repouso” ou para início de uma investigação mais aprofundada sobre os sintomas, com uma bateria de exames, por exemplo.
Investigação e medidas
Embora não tenha anunciado uma auditoria formal, a Secretaria informou que avalia medidas internas para monitorar padrões de emissão e reforçar a orientação aos plantonistas quanto ao uso responsável dos atestados.
Nos bastidores, servidores relatam pressões constantes de pacientes para obtenção de afastamentos, mesmo sem justificativa clínica compatível. “Alguns chegam pedindo atestado antes mesmo de descrever os sintomas”, relatou, sob anonimato, um médico que atua em uma das UPAs.
A pauta deve ser debatida em reunião do Conselho Municipal de Saúde e, segundo a ACIG, também deve ser levada ao Ministério Público do Trabalho para análise dos possíveis desdobramentos legais e institucionais.
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