MILTON LUIZ CLEVE KÜSTER
Advogado desde 1978, o guarapuavano radicou-se em Curitiba (PR) e Itapema (SC), sem nunca esquecer que "bebeu a água da Serra da Esperança".
Contato: milton.kuster@gmail.com | Instagram: milton_luiz_cleve_kuster
O milagre de Deus
Crônica de uma transformação espiritual
03/11/2025
(O autor escreve toda segunda-feira nesta seção)
A vida, por vezes, nos arremessa contra paredões que parecem intransponíveis. Para mim, o primeiro deles ergueu-se no dia 13 de dezembro de 2021, quando a notícia mais temida chegou: minha querida e saudosa mãe nos deixara. Para nós, filhos, a morte dos pais sempre será prematura, um golpe inesperado, mesmo que a saúde, como a dela, já não fosse a mesma. A surpresa, contudo, abriu uma fenda, e por essa fenda, o mundo como eu o conhecia começou a ruir.
Mal havia me recuperado do luto e, apenas dezoito dias depois, na noite de 31 de dezembro de 2021, o corpo gritou. Conversava com meu amigo Paulo Esteche, que, com a sensibilidade dos verdadeiros amigos, notou algo diferente na minha voz e perguntou se eu estava bem. Logo em seguida, as dores características de um infarto começaram a me consumir. Pedi à Margarete que me levasse ao hospital em Balneário Camboriú. No carro, a mente corria, lembrando-me do congestionamento habitual da BR-101 no último dia do ano. Por um milagre, a estrada estava livre, e chegamos em cerca de 20 minutos, um tempo precioso que, retrospectivamente, sinto como o primeiro sinal de que algo maior estava em jogo.
Após repouso e recuperação, a vida parecia querer seguir seu curso. No início de janeiro, fui a Guarapuava para os 70 anos da Agrária, convidado por Gehard Temari para o lançamento de seu livro, onde meu pai seria homenageado. A vida, porém, tinha outros planos. Retornando, tive mais quatro infartos, em uma sequência implacável que me fez confrontar a fragilidade da existência. O quinto, como mencionei em desabafos anteriores, foi o menos dolorido fisicamente, mas o mais significativo em relação ao estado emocional, a consequência imediata de uma alma em turbulência. Se a depressão pós-infarto é comum, imagine quando a ela se soma a morte de um ente querido, abrupta e inesperada.
Foi nesse turbilhão que a virada de chave aconteceu. Até os 68 anos, com exceção de uma cirurgia de hérnia de hiato e outra de apêndice, minha vida foi de relativa saúde. Com o primeiro infarto, a constatação brutal de que não sou infalível me forçou a refletir. Mas a reflexão inicial, sobre o que fiz ou deixei de fazer, era equivocada. O verdadeiro aprendizado veio quando percebi que o correto era focar em quem fui e quem sou. O SER é infinitamente mais importante, pois ninguém pode tirar de mim, e ele me acompanha para a vida eterna.
Em uma madrugada de insônia, o silêncio da noite amplificou as perguntas. Sem conseguir voltar a dormir, comecei a refletir sobre a vida e a morte. Qual era o significado da MINHA vida? Foi então que me peguei em um diálogo inusitado com o Criador: "Pô cara! Se tantas pessoas conseguem falar com você, eu também quero! Me dá um sinal!" Não sei por que, mas algo dentro de mim clamava por uma resposta direta. E, para minha surpresa, recebi não um, mas cinco sinais, cada um me guiando em direção a uma experiência mais íntima com Deus.
A verdade é que, pelo andar da carruagem, Deus me queria vivo. A Bíblia, no livro de Jó 12:10, ressoa com clareza: "A vida de todas as criaturas está na mão de Deus; é ele quem mantém todas as pessoas com vida." A grande pergunta que se impunha, e que intriga gerações, era: por que fui colocado neste planeta? Por muito tempo, minhas buscas eram egocêntricas: o que eu quero ser? O que devo fazer? Quais são os meus objetivos? Todas essas perguntas, feitas com um olhar para dentro de mim mesmo, jamais me levariam a descobrir o real sentido da vida. Minha convivência com Deus até então fora egoísta, marcada por um distanciamento inexplicável e pelo uso Dele para satisfazer meus próprios desejos.
O aprendizado veio com a compreensão de que nasci de acordo com os propósitos Dele e para cumpri-los. Viver, então, é deixar Deus usá-lo para Seus propósitos, e não usar a Deus para o que eu desejo. Ser bem-sucedido e cumprir o propósito de sua vida são coisas absolutamente distintas. E para descobrir esse propósito, não nos podemos esquecer do "Manual do Fabricante", a Bíblia. Ela não nos deixou às cegas, mas nos oferece as respostas para porque estamos aqui, como a vida funciona, o que evitar e o que esperar. O Provérbio 19:21 se tornou um farol: "Muitos são os planos no coração do homem, mas o que prevalece é o propósito do Senhor."
A morte, que antes parecia apenas um mistério assustador, começou a se revelar também fascinante. E se fosse o início de uma vida eterna, como muitas tradições sugerem? Essa ressignificação me permitiu encarar os desafios diários, e o sentimento de que a vida pode acabar a qualquer momento, com uma nova perspectiva.
Essa transformação pessoal teve reflexos práticos e imediatos. Após a série de infartos, percebi a urgência de corrigir a rota da sucessão no escritório. A transição estava num ritmo lento, e isso, em minha nova visão, poderia comprometer a continuidade e o legado. A saúde debilitada me forçou a agir. Convoquei uma reunião com os líderes, expliquei a urgência da situação e acelerei o processo de sucessão. A equipe respondeu positivamente, e a nova liderança começou a assumir suas responsabilidades, injetando novas ideias e energias. Essa foi a aplicação prática da minha entrega: usar minha vida e meu discernimento para o melhor propósito, mesmo em meio à adversidade.
George Bernard Shaw, em suas palavras, ecoava o que eu começava a sentir: "Esta é a verdadeira alegria da vida: ter um propósito reconhecido por você mesmo como digno. Ser uma força da natureza, em vez de um exaltado e egoísta repleto de ressentimentos e de frustrações, sempre reclamando que o mundo não se devota a torná-lo feliz." Mário Sérgio Cortella também me lembrava que "a única coisa que você leva da vida, é a vida que você leva."
Essa jornada também me confrontou com vulnerabilidades. Por medo de rejeição, insegurança, influência do ambiente ou timidez, muitas vezes temos vergonha de falar em Deus, receio de sermos chamados de "beato" ou "carola". Mas a maneira de lidar com isso é buscar a Deus em oração, pedindo coragem, clareza e sabedoria.
Nessa época de intolerância religiosa, destaco a importância de aceitar e respeitar. Tenho amigos de várias matrizes religiosas e ateus, e não os discrimino. Percebo que muitos deles, mesmo materialistas, são muitas vezes mais espiritualizados do que muitos cristãos, estando, talvez, mais próximos do que Deus deseja de nós. A passagem de João 3:30, "É necessário que Ele cresça e que eu diminua", me ensina sobre a humildade e o serviço. E Jesus nos mostra que, para a plenitude, menos é mais: quanto menor a ligação da sua felicidade ao "ter", mais satisfeito em Cristo você será.
Meu amigo Leomar Kaminski, via WhatsApp, me enviava, entre outras mensagens, a sabedoria de que "o grande segredo da vida é descobrir qual é o nosso propósito." E não será num estalar de dedos que essa clareza virá, mas a Bíblia é, de fato, um documento histórico e uma fonte inesgotável de ensinamentos sobre propósitos, com respostas para todos os nossos anseios, independentemente do viés religioso.
E depois de muita reflexão, de encaixar meus pensamentos com o que quero transmitir, creio ter finalmente encontrado o propósito de Deus para a minha vida: de alguma forma, quero transformar a vida de pessoas! Deus colocou essas pessoas em meu caminho e permitiu que eu impactasse suas vidas. Encaro isso como uma benção.
Nesta semana, em uma consulta de revisão com o cardiologista, ouvi uma frase que selou essa jornada: "Você pode considerar-se um milagre de Deus!" Essas palavras reverberaram em minha alma. Por isso, pedi perdão pelos meus pecados, entreguei a minha vida a Ele, para que faça dela o que desejar.
Agradeço imensamente à Margarete, meus filhos Rafaela e Júnior, minha nora Adriane, meus netos Henrique, Antônio e Martina (os dois últimos, em sua inocência, sem saber o que estava acontecendo), minha família, irmãos, sobrinhos, primos e afins. Um agradecimento especial ao meu amigo Paulo Esteche, por ter sido quem bateu o sino da esperança. Sei que foram momentos tensos para todos, talvez tanto ou mais do que para mim. Mas eu tinha fé, e continuo tendo, de que Deus me quer vivo! Que Ele nos abençoe!!
Todo mundo fala
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