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O fator Fernando Ribas Carli

Sábado, 08 de agosto de 2020

Eleições municipais de 1988 em Curitiba. O então candidato a prefeito Algaci Tulio representava uma força de direita que vinha dominando a capital do Paraná desde o regime militar. Na oposição, o peemedebista Maurício Fruet despontava como líder das pesquisas e a poucas semanas das eleições era dado como virtual vitorioso. Contra Fruet, havia outra chapa de candidatos, encabeçada por Enéas Faria, que na prática representava uma divisão de votos com Algaci Tulio. A iminência de uma derrota levou o grupo situacionista a uma manobra arriscada: a 12 dias das eleições, Algaci Tulio e Enéas desistem da disputa e entrou em cena o urbanista Jaime Lerner, o perfil ao gosto de uma Curitiba que sempre investiu pesado no marketing da modernidade. No fechamento das urnas, o resultado: Lerner bateu Fruet de tala erguida, com 48,5% contra 29,4%. Entre os jornalistas e cientistas políticos, este episódio ficou conhecido como “1988, os 12 dias que viraram 12 anos no poder”, numa referência ao tempo em que Lerner permaneceu no comando do Estado.

DR. ANTENOR

A quatro meses das eleições de 2020, a voz corrente entre os observadores do quadro sucessório é de que Guarapuava convive com o espectro de 1988. Pesquisas informais e com critérios científicos, que não são registradas conforme a legislação eleitoral e não podem ser oficialmente divulgadas, teriam chegado ao mesmo diagnóstico de quatro anos atrás, nesta mesma época. A candidatura do petista Antenor Gomes de Lima assusta. Passa ano, volta ano, o médico inicia a corrida com um carro cheio de combustível e com uma larga vantagem sobre os demais concorrentes. Pelo menos um dos oponentes, aquele que vence no final, identifica as falhas de Dr. Antenor com relativa tranquilidade (a falta de planejamento é gritante) e no dia 1º de janeiro assume as chaves do Paço Municipal.

MIGRAÇÃO DE VOTOS

Pela primeira vez nas últimas décadas, as eleições municipais em Guarapuava não têm na cabeça de chapa um sobrenome Silvestri, Carli, Mattos Leão. Embora sejam pesado-pesados do processo eleitoral, e continuem efetivamente no comando do Poder Municipal, as famílias terão que trabalhar para transferir votos para os candidatos de suas preferências. Em vez de escolher e fortalecer um sucessor antecipadamente, o atual prefeito, Cesar Silvestri Filho, preferiu liberar cinco secretários como pré-candidatos – e só dois, Celso Góes e Itacir Vezzaro, estão na “finaleira”. A tendência é de que continuará assim até a convenção, em setembro. O deputado Artagão de Mattos Leão Junior, aparentemente, já teria decidido pelo advogado Vitor Hugo Burko, que já foi prefeito por duas vezes seguidas, e agora liberou seus seguidores a abrirem artilharia pesada contra Cesar Silvestri Filho nas redes sociais.

INSPIRADO EM LERNER

O empresário Fernando Ribas Carli é um seguidor de Jaime Lerner. Foi seu secretário-chefe da Casa Civil, amigos e companheiros no antigo PDT, admirador pessoal de Lerner pelo espírito urbanóide do ex-governador paranaense, reconhecido mundialmente como “arquiteto de cidades”. A campanha lernerista dos “12 dias” está presente na memória de Fernando Carli e é o sonho de qualquer político: entra no processo numa hora em que os demais candidatos já se estapearam até as últimas, estão desgastados, a opinião pública cansada, sem horizontes, e é uma campanha de baixíssimo custo.

SONHO DE BERNARDO

Carli está filiado ao PSD de Ratinho Junior e não há dúvidas de que teria o apoio incondicional do governador. A reapiração do ex-prefeito em recentes inaugurações na Cidade dos Lagos, tinha um motivo especial, o Hospital Regional, que leva o nome do filho Bernardo Ribas Carli, morto num trágico acidente de avião dois anos atrás. Por dois anos, Carli respeitou o luto pela morte do filho, um sentimento que transbordou para toda a cidade. Isto é mais um componente, pois o sonho de Bernardo era ser o prefeito, e ele trabalhava arduamente para isso. Sendo o candidato, o que Fernando Carli traria de novo?

CONJECTURAS

Por mais que sejam conjecturas, o que é normal na análise política, da construção de cenários em meio às disputas, não há qualquer exagero na hipótese de Fernando Carli estar construindo o seu “12 dias”. É voz corrente no universo político local que Carli pode ser o fator-surpresa. Se ele vai aceitar, e se os outros candidatos vão abrir este espaço, só o futuro dirá.

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