milton luiz cleve kuster

MILTON LUIZ CLEVE KÜSTER

Advogado desde 1978, o guarapuavano radicou-se em Curitiba (PR) e Itapema (SC), sem nunca esquecer que "bebeu a água da Serra da Esperança".

Contato: milton.kuster@gmail.com | Instagram: milton_luiz_cleve_kuster

Opinião

O alfabeto de vidro: uma crônica sobre o verbo moderno

Estamos vivendo o fenômeno da compactação da alma

05/01/2026

O silêncio de minha mesa foi subitamente interrompido pelo vibre metálico sobre ela. O que outrora exigiria laudas de papel timbrado e a precisão cirúrgica de uma máquina de escrever, agora resumia-se a uma notificação luminosa. Ao desbloquear a tela, o remetente não oferecia saudações formais ou a elegância do "atenciosamente", mas sim uma sequência heráldica de três símbolos: um foguete, um aperto de mãos e um círculo verde.

Essa nova taquigrafia emocional transformou a profundidade do pensamento em impulsos visuais instantâneos. As abreviações, como o onipresente "abs" ou o pragmático "vc", funcionam como atalhos para uma mente que não tem mais tempo para as vogais. Estamos vivendo o fenômeno da compactação da alma, onde a complexidade de um acordo ou o calor de um afeto são destilados em pixels coloridos que piscam sob o polegar.

A ironia reside no fato de que, ao buscarmos a eficiência máxima, retornamos paradoxalmente à era dos hieróglifos.

Onde antes reinava a sintaxe estruturada, hoje governa a interpretação ambígua de uma "carinha" que pode significar ironia, cansaço ou pura falta de assunto. A palavra escrita, que por séculos foi a âncora da civilização e do direito, parece estar se desmaterializando em uma névoa de figuras que dizem tudo e, por vezes, absolutamente nada.

Contudo, essa comunicação minimalista reflete a agilidade de uma vida em movimento, onde a pausa para o ponto final tornou-se um luxo aristocrático. Se o verbo era o princípio de tudo, o emoji tornou-se o ponto de chegada de uma sociedade que prefere o brilho da imagem ao peso do dicionário. No final do dia, a pergunta que resta não é o que foi dito, mas se o receptor captou a frequência exata daquela luz amarela que sorri na escuridão digital.

Alguém que vai ler, vai entender que essa crônica é em sua homenagem!

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