No Paraná, investigação contra o PCC cria conexões suspeitas com empresas envolvidas em privatizações
Não há nenhuma comprovação de crime, mas os indícios são suficientes para que oposição questione o governador Ratinho Júnior
01/09/2025
A operação federal contra fraudes no setor de combustíveis em São Paulo, batizada de Carbono Oculto, estabeleceu uma conexão com postos de combustíveis no Paraná e também com empresas que participaram do processo de privatizações do governo Ratinho Júnior. A investigação revelou supostos esquemas bilionários de lavagem de dinheiro ligados ao Primeiro Comando da Capital (PCC), a maior facção criminosa do país. Em meio às apreensões e relatórios técnicos, surgiram as relações desconfortáveis com o Paraná.
No plenário da Assembleia Legislativa, na manhã desta segunda-feira (1º), o deputado Arilson Chiorato (PT) levantou a voz em tom grave. Diante de colegas e de servidores que acompanhavam a sessão, ele afirmou que a operação não apenas atinge empresas de fachada ou doleiros escondidos em São Paulo. “Ela escancara um problema aqui, no Paraná”, disse, erguendo uma pasta de recortes de jornais. “Mostra que o modelo de privatizações e concessões adotado pelo governo abriu espaço para que pessoas que nem sabemos quem são assumissem ativos estratégicos.”
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Na lista de exemplos citados por Chiorato, um caso parece condensar as falhas do sistema. Em 2023, o terminal PAR50, no Porto de Paranaguá, foi arrematado em leilão por apenas R$ 1 milhão. Meses depois, o mesmo ativo foi revendido por R$ 36 milhões – um salto de valor que "nunca foi explicado". Hoje, a área aparece no radar da Polícia Federal como possível rota de entrada ilegal de metanol.
“Na época, já alertamos que o leilão tinha apenas um participante. Agora vemos esse mesmo ativo ser investigado em uma operação nacional. O que mais precisamos para provar que há algo errado?”, questionou o deputado, olhando diretamente para a base governista.
A pobreza e o cartão suspeito
As revelações também atingem programas sociais. O Comida Boa, criado para garantir R$ 80 mensais a famílias em situação de vulnerabilidade, foi apontado como uma das portas de entrada de empresas suspeitas no Estado. O governo contratou a fintech BK Bank para administrar os cartões. A mesma empresa, segundo a Polícia Federal, mantém ligações com o PCC.
Para muitas famílias, o cartão significava a diferença entre a mesa vazia e uma sacola de arroz e feijão. Agora, com a suspensão do contrato após as denúncias, paira a sensação de que até a política de combate à fome foi atravessada por interesses criminosos, segundo a interpetação da ala oposicionista na Assembleia Legislativa do Paraná.
Bancos, fundos e a Copel
O fio da investigação chega também ao coração do mercado financeiro. O Banco Genial, que assessorou a privatização da Copel, a maior estatal do Paraná, renunciou à gestão de fundos citados na operação. A Reag Investimentos, uma das maiores gestoras do país, com quase R$ 300 bilhões sob administração, também aparece nas reportagens da Folha de S.Paulo e de O Globo como alvo das apurações.
Para críticos, esse elo entre grandes instituições e esquemas suspeitos mostra que a fronteira entre capital legítimo e recursos ilícitos pode ser mais tênue do que aparenta. “Se uma gestora desse porte está sob investigação, quem garante que privatizações no Paraná não foram influenciadas por dinheiro criminoso?”, disse Chiorato, ecoando a preocupação de parte da sociedade civil.
O risco na venda da Celepar
Entre os pontos mais sensíveis está a Celepar, companhia estadual de tecnologia da informação. A estatal guarda dados de saúde, segurança, CPF e endereço de todos os paranaenses. A ideia de transferir esse patrimônio a fundos de investimento – cujos controladores muitas vezes permanecem ocultos – acendeu o alerta vermelho da oposição.
“Imaginem dados de milhões de cidadãos sob controle de investidores que nem sabemos quem são”, alertou o deputado. “É um risco que o Paraná não pode correr.”
Um debate maior sobre privatizações
O governo estadual afirma que já suspendeu contratos sob suspeita. Mas, nos corredores da Assembleia e nos cafés de Curitiba, a pergunta que circula é outra: o modelo de privatização adotado pelo Paraná, vendido como moderno e transparente, teria se tornado uma porta aberta para a infiltração do crime organizado?
Especialistas dizem que a pressa em colocar ativos no mercado, combinada com a falta de fiscalização rigorosa, criou um terreno fértil para irregularidades, ou, no mínimo, suspeitas que alimentam o discurso da oposição. “Não se trata de culpar diretamente o governador”, disse Chiorato, em tom mais cauteloso. “Mas é preciso reconhecer que o compliance falhou. Precisamos de respostas claras.”
Entre promessa e risco
Ratinho Jr. fez das privatizações uma marca de seu governo. A venda da Copel foi celebrada como símbolo de eficiência e modernização. Mas a Operação Carbono Oculto expõe o outro lado dessa narrativa: o risco de que ativos públicos estratégicos sejam controlados por capitais que não passam pelo crivo da legalidade. A dúvida, agora tornada pública e elemento central em narrativas políticas, deverá dominar o debate até as eleições de 2026, até que seja definitivamente esclarecida.
Enquanto a investigação avança, o futuro de empresas como a Celepar permanece em suspenso. E, no Paraná, cresce a sensação de que o projeto de privatizações – antes tratado como caminho inevitável para o desenvolvimento – pode estar atravessado por uma sombra incômoda: a do crime organizado infiltrando-se nas engrenagens do mercado.
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