Agropecuária na Região de Guarapuava sob influência do frio, geadas e chuvas
Clima rigoroso afeta culturas hortícolas e pastagens, mas pode favorecer produção de trigo e controle de pragas; impacto nas proteínas animais também é observado
30/06/2025
A produção estadual de trigo deve alcançar 2,6 milhões de toneladas, crescimento de 16% em relação ao ciclo anterior, mesmo com uma redução de 27% na área plantadaAs intensas geadas que atingiram o Centro-Sul do Paraná nas últimas semanas mostram efeitos diferenciados sobre a agropecuária da região. Um novo boletim do Departamento de Economia Rural (Deral), previsto para esta terça-feira (1º), deve detalhar o saldo parcial desses eventos climáticos – que impuseram duras perdas a cultivos hortícolas e pastagens, mas simultaneamente ofereceram condições favoráveis para culturas de inverno, como o trigo e a cevada.
Na região de Guarapuava, onde os termômetros despencaram com força, produtores de olerícolas a céu aberto enfrentaram perdas severas. Folhosas como alface e rúcula foram duramente atingidas, sobretudo em propriedades que não contam com estufas. As geadas foram implacáveis para os produtores que não utilizam coberturas. A perda é praticamente total em muitos casos.
O setor pecuário também sofreu: pastagens de inverno – mesmo com variedades adaptadas ao frio – apresentaram danos significativos, forçando produtores a recorrer a silagem ou suplementação. Em um cenário logístico já complexo, a recuperação pós-geada esbarra na dificuldade de manutenção das estradas vicinais. Guarapuava, maior município do Paraná em extensão territorial, possui mais de 5 mil quilômetros de vias rurais, muitas das quais ficaram comprometidas após o excesso de chuvas.
Apesar dos prejuízos pontuais, agrônomos destacam efeitos positivos das baixas temperaturas. “O frio intenso ajuda no controle de pragas, o que reduz custos com defensivos”, afirma Carlos Hugo Godinho, engenheiro agrônomo do Deral. Para o trigo, que responde por boa parte da renda agrícola regional, o impacto foi relativamente benéfico: cerca de 81% das lavouras estão em fase vegetativa – momento em que o frio favorece o perfilhamento e aumenta o potencial produtivo.
A produção estadual de trigo deve alcançar 2,6 milhões de toneladas, crescimento de 16% em relação ao ciclo anterior, mesmo com uma redução de 27% na área plantada. A Região de Guarapuava responde por parcela expressiva desse volume.
No milho, a segunda safra está em estágio avançado, com 63% das lavouras em maturação, o que limita os riscos. No entanto, cerca de 1 milhão de hectares – especialmente no Oeste e região de Campo Mourão – ainda estavam em fase suscetível à geada no momento do evento. Mesmo diante de perdas estimadas em até 20% nessa área, a projeção permanece otimista: 16,5 milhões de toneladas, o que representaria a maior colheita da história paranaense.
Recomendado para você
Outras culturas de inverno também mostram desempenho robusto. A cevada, com 73% da área já semeada e ainda em estágio inicial de desenvolvimento, deve registrar expansão de 43% na produção, chegando a 423 mil toneladas. A área plantada cresceu 20%, totalizando 96,9 mil hectares.
A batata, carro-chefe da horticultura estadual, apresentou resiliência. Embora a parte aérea possa ter sido afetada, o tubérculo subterrâneo escapou de danos mais graves. A primeira safra já havia superado em 48% o desempenho do ano anterior, e a segunda teve aumento de 11%. Em contraste, a produção de tomate sofreu retração de 16%, apesar de a ocorrência de um novo vírus ter sido parcialmente contida por boas práticas de manejo.
As consequências sobre os preços devem surgir nas próximas semanas. A escassez pontual de hortaliças e folhosas pode impulsionar os valores no atacado e varejo. A recuperação total das lavouras dependerá da infraestrutura de cada propriedade e pode levar até 90 dias.
No setor animal, os derivados lácteos sofreram queda de preços em junho, mas os analistas já preveem pressão de alta no curto prazo devido à redução da qualidade das pastagens. No segmento avícola, o custo de produção do frango vivo caiu 2,12% em maio, para R$ 4,78/kg, impulsionado principalmente pela melhora na produtividade alimentar e redução de insumos.
O boletim do Deral previsto para esta terça-feira deve oferecer um panorama mais preciso das perdas e oportunidades que emergem após um dos episódios climáticos mais intensos do ano agrícola. Em um contexto de volatilidade crescente, os agricultores paranaenses reforçam a resiliência como estratégia de sobrevivência e competitividade.
▪ Veja também
- Abril registra chuva e temperaturas acima da média na maior parte do Paraná
- Com chuvas do fim de semana, seis cidades do Paraná superam média do mês de abril
- Fim de semana antes do feriado terá sol e tempo estável em todo o Paraná
- Nova atualização do Monitor de Secas aponta para continuidade da estiagem no Paraná
- Guarapuava deve ter abril mais quente e seco, com risco de geada no fim do mês, aponta Simepar

