Agricultura familiar: a força que pode potencializar ainda mais a economia de Guarapuava
“A agricultura familiar não faz parte do problema; ela é, também, solução”
18/12/2025
O ruralista Josiel Lima, ex-secretário de Agricultura de Guarapuava: "É preciso expandir para aumentar a divisão do bolo"A importância da agropecuária está intimamente ligada à História de Guarapuava, um dos municípios-polos do agro brasileiro. É dentro desse cenário que o ruralista e agrônomo Josiel Lima, ex-secretário municipal de Agricultura de Guarapuava, analisa que o município reúne condições estratégicas para se tornar uma referência estadual em agricultura familiar.
Josiel Lima há anos acompanha de perto a realidade do campo no maior município em extensão territorial do Paraná. Segundo ele, investir de forma estruturada no pequeno produtor não é apenas uma política social, mas uma estratégia econômica capaz de gerar renda, emprego, alimentos e desenvolvimento sustentável.
“A agricultura familiar não faz parte do problema; ela é, também, solução”, afirma Josiel Lima. Para o ex-secretário, apoiar o agricultor familiar significa melhorar diretamente a vida de milhares de pessoas no campo e na cidade: mais renda para pequenos e médios produtores, maior oferta de alimentos para a população urbana e a criação de agroindústrias capazes de ampliar a circulação de dinheiro e a geração de empregos em Guarapuava.
De acordo com Josiel Lima, Guarapuava abriga milhares de famílias de pequenos proprietários rurais. Parte delas já está organizada em associações e cooperativas, como a Central da Agricultura Familiar de Guarapuava (Carmug) e a Comicro, e começa a sentir os efeitos positivos do sistema associativo.
Potencial existente, mas ainda subutilizado
“Esses produtores que estão organizados já conseguem acessar políticas públicas, crédito, assistência técnica e mercado. O resultado aparece na renda e na melhoria da produção”, analisa Josiel Lima, com a experiência de produtores rural.
No entanto, o ex-secretário alerta que há um número expressivo de famílias fora desse processo. São agricultores que deixam de produzir ou produzem muito abaixo do potencial por falta de apoio técnico, financeiro e planejamento rural. Um dos principais entraves, segundo Josiel Lima, é a falta de regularização fundiária.
Pronaf travado e dinheiro que deixa de circular
Um exemplo concreto dessa realidade está no Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf). Josiel Lima explica que parte significativa dos recursos destinados a Guarapuava e região acaba retornando aos cofres do governo federal.
“O dinheiro existe, mas muitos agricultores não conseguem acessar o financiamento porque não têm o registro definitivo do imóvel. Sem documentação, não há crédito. É um prejuízo coletivo”, afirma.
Segundo ele, o impacto negativo vai além do produtor rural. O comércio local deixa de vender máquinas, insumos e serviços; a economia perde circulação de dinheiro; e a população urbana enfrenta menor oferta de alimentos e menos oportunidades de emprego.
“Hoje, dezenas de propriedades estão subutilizadas, fora de um sistema produtivo de rendimento. E isso poderia ser diferente”, destaca.
Regularização fundiária vinculada à produção
Josiel Lima lembra que já existem programas de regularização fundiária, inclusive do Ministério da Justiça e do Tribunal de Justiça do Paraná, mas que eles atingem principalmente a área urbana. Para o campo, ele defende uma abordagem integrada.
“Se criarmos um programa agrícola global, podemos trabalhar a regularização dos imóveis vinculada à produção. O produtor que entrar no programa passa a ter apoio técnico, planejamento e acesso ao crédito”, propõe.
Para o agrônomo, essa regularização é a chave que destrava uma série de políticas públicas hoje inacessíveis para muitas famílias do meio rural.
Associativismo como eixo central
Ao longo de sua trajetória como gestor público e técnico, Josiel Lima acompanhou de perto o fortalecimento do associativismo rural. No início deste ano, ele intermediou uma audiência da Carmug e da Comicro com o secretário estadual da Agricultura, Márcio Nunes.
Como resultado, as duas entidades ficaram habilitadas a acessar recursos do Programa Coopera Paraná, podendo captar até R$ 2,5 milhões cada, totalizando R$ 5 milhões para a agricultura familiar de Guarapuava só neste programa.
“O associativismo é fundamental. Sozinho, o agricultor não consegue competir. Organizado, ele ganha escala, reduz custos e acessa mercados melhores”, afirma Josiel Lima.
Assentamentos com grande potencial produtivo
Outro ponto central das análises do ex-secretário municipal de Agricultura é o potencial dos assentamentos rurais de Guarapuava. Segundo Josiel Lima, o município possui oito assentamentos promovidos pelo Incra, reunindo cerca de 325 famílias em uma área total de 7.178 hectares.
“Descontadas as áreas de preservação permanente e reserva legal, ainda temos aproximadamente 2.630 hectares plenamente agricultáveis. Se incluirmos áreas de mata passíveis de consórcios com lavoura, esse número passa de 5 mil hectares”, detalha.
Para ele, trata-se de uma área expressiva, capaz de sustentar um projeto agrícola robusto e rentável.
Produzir juntos para ganhar escala
A proposta defendida por Josiel Lima é integrar propriedades vizinhas e promover o plantio coletivo, como se funcionassem como uma única unidade produtiva. Soja, milho, trigo, cevada e aveia podem ser cultivados em escala, com uso compartilhado de máquinas, tecnologia de plantio e apoio à comercialização.
“O ganho de escala reduz custos, melhora o aproveitamento das máquinas e permite um planejamento técnico muito mais eficiente”, explica.
Esse modelo, segundo ele, não exclui a vocação tradicional da agricultura familiar. Pequenas criações, produção de verduras, legumes, leite e derivados continuam sendo parte fundamental do sistema produtivo.
Do campo para a cidade: alimento e renda
Josiel Lima também destaca a importância da futura mini Ceasa anunciada pelo Governo do Estado para Guarapuava. Para ele, a central de abastecimento pode se tornar um elo decisivo entre o campo e a cidade.
“Se tivermos um programa para potencializar a produção da agricultura familiar, aumenta a oferta de alimentos em Guarapuava: arroz, feijão, carne, hortaliças. Todo mundo ganha”, afirma.
A produção local pode abastecer a merenda escolar, as Feiras Solidárias, refeitórios de empresas, escolas e universidades. Para a população, isso significa alimentos frescos, de qualidade e com preços mais acessíveis; para o produtor, mercado garantido e renda contínua.
Coopera Paraná: dinheiro e organização
Josiel Lima ressalta que o Coopera Paraná é hoje uma das principais ferramentas para transformar esse potencial em realidade. O programa, coordenado pela Secretaria de Estado da Agricultura e do Abastecimento (Seab), lançou um edital histórico de R$ 100 milhões para apoiar cooperativas e associações da agricultura familiar.
“O Coopera não é só dinheiro. Ele organiza a produção, melhora a gestão, capacita dirigentes e fortalece as cadeias produtivas”, analisa.
Com projetos aprovados, cooperativas e associações podem acessar até R$ 2,2 milhões para investimentos em estrutura, equipamentos e desenvolvimento dos negócios.
Universidades, jovens e permanência no campo
Outro ponto destacado pelo agrônomo é o papel das universidades de Guarapuava.
Todos os anos, centenas de profissionais são formados, mas muitos acabam deixando o município.
“Precisamos envolver as universidades no apoio à agricultura familiar. Estamos desperdiçando inteligência e talento”, afirma Josiel Lima.
Recomendado para você
▪ Veja também
- Secretaria de Obras recebe segunda ação do RH em Movimento em 2026
- 21,3 mil toneladas: exportações paranaenses de suínos têm melhor resultado para março
- Sustentabilidade, tecnologia e foco na experiência: novas gerações redesenham mercado imobiliário nacional
- Vendas do comércio do Paraná atingem patamar mais alto em 26 anos
- Com recordes, aeroportos do Paraná registram 2,6 milhões de viajantes no 1º trimestre
Todo mundo fala
-
NEGÓCIOSGuarapuava lança Festival de Vinhos para se consolidar no setor -
MARCELO ANTONIO CESCAHomenagem ao Ana Vanda Bassara -
GOVERNO Guarapuava anuncia 865 moradias e amplia política habitacional com foco em baixa renda e classe média -
VIVACULTCircuito Viva a Dança iniciou a programação nesta quinta-feira (23)

