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LITERATURA

A alma medrosa e o coração valente

Terça-feira, 15 de janeiro de 2019

CHICO GUIL

Quando garoto li o conto do menino índio que foi ao pajé e perguntou:

— Mestre, é a coragem o maior dom de um guerreiro?

— Não, garoto — respondeu o ancião. — O maior dom de um guerreiro é a sua juventude.

Fiquei decepcionado. Um pajé de verdade não diria tal asneira! Com a idade de doze ou treze anos eu estava transbordando juventude e não achava aquilo grande coisa. Queria ficar velho depressa para poder entrar no cinema e assistir a todos os filmes proibidos para menores de quatorze!

Creio que o autor daquela história já estava contaminado por antecipação por essa velocidade midiática que nos devasta. Somente um corpo jovem seria capaz de usufruir os produtos que passam pelas vitrines. E a coragem, de que serviria nestes tempos de perigos mínimos?

Os anos se foram, minha juventude restou nas folhas que guardo numa caixa de papelão, mas ainda vejo a coragem como uma virtude rara, manifesta nas manhãs de terremotos, nas tardes de vendavais e nas noites de política. A juventude continua transbordando nas escolas, nos bares, nas repartições públicas, nas manifestações contra a falta de reposição salarial, mas basta o bicho bater o pé e a juventude corre para debaixo dos tapumes, ou para o conforto construído por aqueles que já não possuem juventude.

Os Padres e Pastores dizem que o maior dom da vida é a fé. Mas é necessário um bocado de fé em si mesmo para se ter coragem, enquanto quase todos os medrosos possuem uma fé profunda. 

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