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A política do dois palitinhos

01/04/2024

por Ponciano Sincero

Se existe café melhor, eu não sei. Um virado de feijão com couve e torresmo, uma linguiça frita na banha de porco e café preto, passado na hora. Meu vizinho, Seo Ignácio, veio descendo de Erexim, parou uma temporada em Chapecó, depois em Pato Branco, por fim o “italianón” comprou um sítio aqui no Alagado. Meu virado de feijão não perde em nada pro café da manhã do Seo Ignácio, que é à base de polenta com leite e ovo mexido com queijo e salame. O italiano chama isso de fortaia, mas, pra mim, é uma mexidão com ovo. Sei não o resultado com tanta mistura...

Chegam notícias da minha amada Guarapuava. Piazada veio pegar uns lambaris no Alagado e “truxeram” costela, alcatra, picanha, metade das camionetes forrada de cerveja e baralho pro tal de poker. Eu sou da cachetinha dura, de 5 fichas. Ouvi falar que o grupo do pontinho joga com 500 reais na abertura, 300 na primeira entrada e vai dobrando.  
Com tanto dinheiro circulando, o Alagado virou um cassino. Sem contar o glamour da ostentação, com condomínios de luxo, os “news” ricos e seus brinquedinhos. Estão pensando em montar um hidroporto, principalmente para helicópteros...

Da velha Gorpa, a velha política continua sendo a nova. Celso Góes dá sorriso até pra poste (não o do Fernando Carli, que numa de suas pré-campanhas cunhou o slogan “é tão bom, que elege até um poste”). É que o Celsinho segue orientações do seu sansei para reverter a imagem de carrancudo, mal-humorado, mal-amado, de mal com o mundo, por uma expressão mais sorridente, o véio da lancha numa versão menos tiozão, nem polidance, mas também não o “italianón” do Seo Ignácio, que tenta pescar e não pega mais nada.  

Também contam que a Janaína está comendo com dois palitinhos, o que não é nenhuma novidade. Em sua versão assumidamente sushi, a “loira” viu parte dos planos naufragar numa sanga junto ao Alagado. Estava tudo acertadinho, desde o começo. Ela entraria numa Secretaria na Prefeitura e de lá, sairia a vice sem grandes efeitos colaterais. Não demandaria muito esforço. Basta, uma vez por ano, levar lista de emprego, a mando do pessoal da madeira, pros soldados que estão dando baixa no Exército, estacionar o caminhão do Sebrae numa esquina, e o desenvolvimento aconteceria num estralar de dedos. A Jana está lá, aproveitando estrutura de gabinete, salário e status de secretária, e dizendo debaixo dos cabelos brancos do Celsinho: sou candidata! Contei essa história pro italianón e o abençoado quase derrubou a chapa de tanto rir. Quem é burro da história? – perguntou, já respondendo: o povo, aquele que paga a conta!

Nos corredores da Barrosa, ecoam vozes sugerindo que a loira do sushi não passa desta segunda ou terça-feira na Secretaria. Estaríamos assistindo ao último capítulo da versão “A loira do sushi”, com o subtítulo “Ou vai ou racha”. Pode ter duplo sentido, mas não é de nossa autoria. O crédito vai para o presidente do Republicanos, Marcelo Almeida, cuja definição sobre Janaína, feita no encontro do partido em Guarapuava, é o cúmulo da piada-pronta: “Somos um projeto de poder. A Janaína vem na contramão”. A experiência de Guarapuava, de andar na contramão, tem provocado tragédias por demais. 

Não cabem dois projetos no mesmo projeto de Celso Góes. Ou é ele, ou é ele. É abusar da inteligência do guarapuavano, sugerir que Janaína ficou esse tempo todo na Secretaria só pra entregar lista de emprego no quartel do Exército. Convenhamos, uma microempresa que entrega panfletos faria com mais eficiência e legitimidade. 

O Seo Ignácio cultiva sementes de milho e me garante que são puras, orgânicas. Trocou por cigarro “de filtro” com o cacique dos Guaranis, do lado de lá da Ponte do Alagado. Diz-me de sua saudade do ranger da pedra moendo o milho numa atafona de pau a pique. Tentou instalar um monjolo nas barrancas do Alagado, mas a água não tinha caimento suficiente. Bate o milho no muque, num pilão, com paciência, até virar farinha pra broa e pra polenta. 

O Italiano se enerva quando falo da “política do sushi” que nutre o último andar da Barrosa. Disse que ouviu falar do Visconde Guarapuava, do Lustosa de Oliveira, do Nivaldo Kruger, do Fernando Carli e até do Cesar Filho, sem contar Padre Chagas, Capitão Rocha Loures, do Homem do Cavalo, do Cacique Guairacá, e do Lobo Solitário. Estariam hoje fazendo de Guarapuava um laboratório? O Italiano arregala os olhos azuis, as veias engrossam no pescoço alongado e ele engole a saliva. “Porco Dio, 200 anos e esse povo continua apanhando de rebenque!”, grita ele, com os punhos cerrados, voz chorosa. 

Que preocupação isso tem com a nossa história, com o desenvolvimento real e sustentável, com desenvolvimento regional, com o desnível social exorbitante em nossas plagas, com o futuro dos 20.000 estudantes de hoje nas universidades locais, com as centenas que se formam todo ano...

Até o Italiano percebeu que a “política do sushi” lançou o “Vai ou racha” como subproduto do primeiro projeto, que não vingou. Agora põe a loira na praça, com ares republicanos, na tentativa de salvar o que sobrou do estratagema dos dois palitinhos, o que explica tanto racha. Seo Ignácio lembra: na minha terra, chamam isso de chantagem. A piazada do poker diria, é blefe. Marcelo Almeida, alter ego de Janaína, completa: “Tudo pelo poder, na contramão”. 

Nunca se viu uma declaração tão sincera, tão refinada, o must, tão besh-lover, exemplo pra gurizada que está deixando a farda. 

Por hoje é só. Aceitei o convite do Italiano e a conversa não pode estragar a polenta com galinha caipira. 

E o que dizer do Antenor, o Dr? Bueno... Deixamos pra outra porque a conversa é longa.

Viva Guarapuava!
 

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